terça-feira, 31 de maio de 2016

Cantata


Cantata


Para ser teu amado
Faço qualquer besteira
Corro supermercado
Escolho couve na feira

Marco hora no dentista
Levo você no meu carro
E se não der na vista
No caminho tiro um sarro

Para ser teu amado
Aceito qualquer condição
Praticar sempre um pecado
Sem salvação,

Te dou banho se quiseres
Faço massagens também,
Dou vivas ao santo daime
Viro Buda, viro zen

Conserto pia, chuveiro
Resolvo toda parada
Me faço de teu mordomo
Me faço tua empregada.
Ponho musica baixinho
Do ponti escolho um solo
Te dou todo meu carinho
Depois te levo no colo

Desejo, sim, meu amor
                                                               Pra minha vida esse fado
De tu seres minha amante

De eu ser o teu amado.

Ruy de Carvalho

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Quadrilha


Quadrilha:

João amava Teresa que amava Raimundo

Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

Que não amava ninguém.

João foi para os estados unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes


Que não tinha entrado na historia.

domingo, 29 de maio de 2016

Poema que acontecceu


Nenhum desejo neste domingo

Nenhum problema nesta vida

O mundo parou  de repente

Os homens ficaram calados

Domingo sem fim nem começo

A mão que escreve esse poema

Não sabe que esta escrevendo

Mas é possível que se soubesse


Nem ligasse.

sábado, 28 de maio de 2016

Eu Também já fui Brasileiro



Eu também já fui brasileiro
Moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde.
E aprendi nas mesas dos bares
Que o nacionalismo e uma virtude
Mas há uma hora em que os bares se fecham
E todas as virtudes se negam.
Eu também já fui poeta
Bastava olhar para mulher,
Pensava logo nas estrelas
E outros substantivos celestes
Mas eram tantas, o céu tamanho,
Minha poesia pertubou-se
Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isto, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
Meus inimigos me odiavam,
Eu irônico deslizava
Satisfeito de ter meu ritmo
Mas acabei confundindo tudo
Hoje não deslizo mais não
Não sou irônico mais não

Não tenho ritmo mais não.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sentimental



Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão.

No prato, a sopa esfria, cheia de escamas

E debruçados na mesa todos contemplam esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra, uma letra somente

Para acabar teu nome!

- está sonhando? Olha que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...

E há em todas as consciências um cartaz amarelo;


“Neste país é proibido sonhar.”

terça-feira, 24 de maio de 2016

Por teu amor



Sei que vou sofrer e chorar
A primitiva e derradeira lagrima
Que nunca tive
Por teu amor

Sei que amor e sangue estarão
Sempre contigo e comigo
Na bendita loucura que sonhei
Por teu amor

Sei que minhas mãos buscarão teu corpo
Na amarga noite do meu futuro
E encontrarão o nada absoluto
Das coisas que desejei
Por teu amor

Sei que vou beber a taca amarga
De um vazio interminável
Que  serão tuas ausências
E delas sofrerei

Sei que de tudo e muito mais
Mesmo que a mim viessem
Todas as dores do mundo
Ainda assim eu riria e cantaria
O canto mais amado
Por  teu amor

Sei também que os céus por onde ando
Sem ti, são o nada do nada
E tu criaturas sem fim, tu abitas em meu redor
Com teu cheiro, graça, sorisso,
Com a luz dos teus olhos
Com languidez do teu corpo,
Com a maciez e o leve arrepiar de tua pele
Com o calor que de ti emana
E nessa vontade de estar em ti
Eu vivo
Eu penso
Eu sofro
E morro

Por  teu amor.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Igreja


Tijolo
Areia
Andaime
Água
Tijolo
O canto dos homens trabalhando
Trabalhando mais perto do céu
Cada vez mais perto
Mais
 - a torre.
E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.
O padre que fala do inferno
Sem nunca ter ido lá.
Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos.
Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida.
A manhã pintou-se de azul
No adro ficou o ateu
No alto fica deus
Domingo...
Bem bão! Bem bão!

Os serafins, no meio, entoam quirieleisão.

domingo, 22 de maio de 2016

Saudades






A saudade é algo assim.
Uma agonia sem fim
Uma dor dentro da alma que chora dentro de mim
Saudade é um rio pequeno
Que corre pra junto do mar
É como a ilusão de um dia te encontrar
Saudade! Ah ! Saudade
Por que me atormentas tanto
Me deixas assim nesse pranto
Como um pássaro sem poder voar
Uma rosa sem perfume
Ninguém gosta de cheirar
Enfim, a saudade é tanta
Que me faz pensar
Que pra sentir saudade
Não precisa se esforçar

sábado, 21 de maio de 2016

para não esquecer Drummond (Cantiga de Viúvo)


Cantiga de viúvo

A noite caiu na minha alma,
Fiquei triste sem querer.
Uma sombra veio vindo; veio vindo me abraçou.
Era a sombra de meu bem, que morreu a tanto tempo.
Me abraçou com tanto amor me apertou com tanto fogo me beijou, me consolou.
Depois riu devagarinho, me disse adeus com a cabeça e saiu.
Fechou a porta; Ouvi seus passos na escada.

Depois mais nada...

sábado, 14 de maio de 2016

O descontentamento de si mesmo (parte 2)


Dessa aversão pelo sucesso dos outros e do desespero por causa dos próprios fracassos, a lama irrita-se contra a sorte e queixa-se do século.
Enquanto se recolhe num canto e, ai, censura a própria penalidade porque sente canseira e até asco de si mesmo. Tudo isso decorre do fato de ser a alma humana de natureza ativa e propensa para o movimento. Toda oportunidade de exercitar-se e distrai-se é lhe grata. Mais gratificante ainda para certos temperamentos dissolutos que se aliviam com a confusão em seus afazeres.
Tal como algumas feridas incitam o contato das mãos que as irritam ou tal como o corpo tomado pela sarna se compraz com o gesto de coçar. Assim diria eu que, nessas mentes, a modo de chagas, brotam malévolas paixões cujo tormento equivale á sensação do prazer.
Existem, com efeito, certas coisas que, mesmo sob incômodo, dão prazer ao corpo tal como esticar-se na cama e mudar o lado não cansado, aliviando-se com a mudança de posição. O mesmo ocorria com o Aquiles de Homero, ora deitado de bruços, ora de costa, acomodando-se em varias posições por ser próprio do enfermo nada tolerar, por muito tempo.
Por isso ele faz da mudança um lenitivo.
Daí aquelas excursões sem destino definido e aqueles giros por praias ignotas ou por mares ou por terra em busca de experiências oposta ao que ocorre no fastio da situação presente.
Então aqueles apelos: “agora, vamos para campanha”  já enjoado das branduras da vida, outro apelo: “Vamos visitar regiões selvagens, o Brúcio e a Lacônia com suas florestas”.
Verdade que algo de ameno desfruta-se naquelas paragens desertas, onde os olhos ardentes de prazer recreiam-se na selvageria de regiões inóspitas.
E ainda “vamos para Táranto, com o seu porto e o seu inverno de brandura, naquela região opulenta que sustentou seu povo de outrora.”
Ou então: “retornemos para Urbe. Já faz tempo que nossos ouvidos estão distante dos estrépitos aplausos e da algazarra dos circos. Sentimos até saudade de ver derramar sangue humano”.
Assim uma viagem após outra e um espetáculo que sucede ao outro. Como diz Lucrécio: desse modo cada um foge de si mesmo”,
Para que fugir, se não nos podemos evitar?
Já que seguimos sempre a nós mesmos, dessa intolerável companhia jamais nos desembaraçaremos!
Para concluir, estejamos bem conscientes do seguinte: o mal de que padecemos não provém dos lugares e, sim, de nós mesmos; somos fracos para tolerar qualquer incômodo; incapazes de aturar, por longo tempo, trabalho, prazeres e qualquer desconforto.
Isso levou muitos á morte porque as mudanças, indefinidamente, retornam para os ponto de partida, sem deixar perspectiva de novidade.

Daí advém o nojo pela vida e pelo mundo. Eis quando explode aquele clamor “Até quando sempre as mesmas coisas”.

Texto extraído da coleção: grandes obras do pensamento universal – 53 (Sêneca – A tranquilidade da alma / A vida Retirada)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O descontentamento de si mesmo. (parte 1)




Isso nasce das inclinações da alma ou da apetência tímida ou pouco realizável, já que não ousam a quanto desejam ou não conseguem. Assim, ficam repletos de expectativas sempre trepidantes. Ora, isso é típico dos irresolutos.

Realmente, eles tentam, por todos os meios, alcançar seus objetivos. Para suas praticas indecorosas e difíceis eles se instruem e incitam. Quando seu empenho fica frustrado, sofrem não por terem objetivado algo mau, mas por tê-lo almejado sem resultado.
Então eles ficam apreensivos, seja por causa do arrependimento de assim terem encetado a vida, seja pelo temor de reincidir.

Daí advém aquela agitação por não encontrarem bom resultado por quanto nem dominam os apetites nem a eles se submetem de todo. Decorre então aquela minguada expansão de vida e o consequente amolecimento de animo perante as frustrações de seus sonhos.

Todos os incômodos se agravam, quando, longe dessa molesta angústia, encontra-se refugio ou no ócio ou nos estudos solitários aos quais não consegue suportar um espírito aberto para assuntos públicos e devotado ás atividades porquanto, sendo de temperamento ativo e inquieto, pouco conforto encontra em si mesmo.

Assim, privado dos deleites que aquelas ocupações proporcionam a quantos as procuram, não suporta sequer a casa, o isolamento e as paredes.

Com desgosto, olha para si como um abandonado.

Daí aquele aborrecimento ou desgosto de si mesmo. Tal o desassossego de espírito que, em lugar algum, encontra repouso, sendo que, ali, projeta aquela aflitiva intolerância da própria inércia cujas razões não ousa confessar. Assim, aquelas suas ambições, encarceradas em sua estreiteza sem evasão, asfixia-se a si mesmo.

Daí advém tristeza, languidez e as mil flutuações de uma alma tomada pela indecisão.
Ela mantém em suspenso as expectativas suscitadas que se frustram na desolação.
Em consequência, a disposição de abominar o próprio repouso e de lamentar por nada ter o que fazer e também de invejar, com fúria, o sucesso alheio. Aliás, a inércia indesejada alimenta a inveja e ambiciona ver A todos malogrados porque não logrou ter seu êxito na vida.
 Texto extraído da coleção: grandes obras do pensamento universal – 53 (Sêneca – A tranquilidade da alma / A vida Retirada)




quarta-feira, 11 de maio de 2016

Para não esquecer Drummond (ou para lembrar) Casamento do céu e do inferno)



Casamento do céu e do inferno:

No azul do céu de metileno
A lua irônica
Diurética
É uma gravura da sala de jantar.
Anjos da guarda em expedição noturna
Velam sonos púberes
Espantando mosquitos
De cortinados e grinaldas,
Pela escada em aspiral
Diz que tem virgens tresmalhadas,
Incorporadas à via-láctea,
Vaga-lumeando...
Por uma frincha
O diabo espreita com o olho torto.
Diabo tem uma luneta
Que varre léguas de sete léguas
E tem o ouvido fino
Que nem violino.
São Pedro dorme
E o relógio do céu ronca mecânico.
Diabo espreita por uma frincha.
Lá embaixo
Suspiram bocas machucadas
Suspiram rezas! Suspiram manso,
De amor.
E os corpos enrolados
Ficam mais enrolados ainda
E a carne penetra na carne.
Que a vontade de deus se cumpra!
Tirante Laura e talvez Beatriz,

O resto vai para o inferno.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Para lembrar Drummond: (Poema das sete faces)



Poema de sete faces:

Quando nasci, um anjo torto.
Desses que vivem na sombra
Disse: vai, Carlos! Ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
Não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pernas amarelas.
Para que tanta perna, meu deus, pergunta meu coração.
Porem meus olhos
Não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
É serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Têm poucos, raros amigos.
O homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu deus, por que me abandonaste.
Se sabias que eu não era deus
Se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo  mundo vasto mundo,
Mais vasto e o meu coração
Eu não devia te dizer
Mas essa lua
Mas esse conhaque

Botam a gente comovido como o diabo.