domingo, 30 de outubro de 2016

Nota Social


NOTA SOCIAL

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca,
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
Como qualquer homem da terra,
Uma ovação o persegue
Feito vaia.
Bandeirolas
Abrem alas,
Bandas de musicas, Foguetes.
Discursos, povo de chapéu de palha.
Maquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis
Bravos...
O poeta está melancólico.
Numa arvore do passeio publico
(melhoramento da atual administração)
Arvore gorda, prisioneira
De anúncios coloridos,
Arvore banal, arvore que ninguém vê
Canta uma cigarra, que ninguém ouve
Um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.
O poeta entra no elevador
O poeta sobe
O poeta fecha-se no quarto.

O poeta está melancólico.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Politica


POLITICA

Mario Casasanta
Vivia jogado em casa
Os amigos o abandonaram
Quando romperam com o chefe político.
O jornal governista ridicularizava seus versos,
Os versos que ele sabia bons
Sentia-se diminuído na sua gloria
Enquanto crescia a dos rivais
Que apoiavam a câmara em exercício
Entrou a tomar porres
Violentos, diários.
E a desleixar os versos.
Se já não tinha discípulos,
Se só os outros poetas eram imitados,
Uma ocasião em que não tinha dinheiro
Para tomar o seu conhaque
Saiu á toa pelas ruas escuras.
Parou na ponte sobre o rio moroso.
O rio que lá embaixo pouco se importava com ele
E, no entanto o chamava
Para misteriosos carnavais.
E teve vontade de se atirar
(só vontade)
Depois voltou para casa
Livre, sem correntes
Muito livre, infinitamente
Livre livre livre que nem uma besta

Que nem uma coisa.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Sweet Home



SWEET HOME

Quebra-luz, aconchego
Teu braço morno me envolvendo
A fumaça de meu cachimbo subindo.
Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês
O jornal conta historias, mentiras...
Ora afinal a vida é um bruto romance
E nós vivemos folhetins sem o saber.
Mas surge o imenso chá com torradas,
Chá de minha burguesia contente.
Ó gozo de minha poltrona!
Ó doçura de folhetim!

Ó bocejo de felicidade!

sábado, 1 de outubro de 2016

Esperteza / No meio do Caminho



ESPERTEZA
Tenho vontade de – ponhamos amar
Por esporte uma loura o espaço de um dia.
Certo me tornaria brinquedo nas suas mãos.
Apanharia, sorriria
Mas acabado o jogo
Não seria mais joguete,
Seria eu mesmo.
E ela ficaria espantada

De ver um homem esperto.

                          


                      NO MEIO DO CAMINHO
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra