sábado, 14 de maio de 2016

O descontentamento de si mesmo (parte 2)


Dessa aversão pelo sucesso dos outros e do desespero por causa dos próprios fracassos, a lama irrita-se contra a sorte e queixa-se do século.
Enquanto se recolhe num canto e, ai, censura a própria penalidade porque sente canseira e até asco de si mesmo. Tudo isso decorre do fato de ser a alma humana de natureza ativa e propensa para o movimento. Toda oportunidade de exercitar-se e distrai-se é lhe grata. Mais gratificante ainda para certos temperamentos dissolutos que se aliviam com a confusão em seus afazeres.
Tal como algumas feridas incitam o contato das mãos que as irritam ou tal como o corpo tomado pela sarna se compraz com o gesto de coçar. Assim diria eu que, nessas mentes, a modo de chagas, brotam malévolas paixões cujo tormento equivale á sensação do prazer.
Existem, com efeito, certas coisas que, mesmo sob incômodo, dão prazer ao corpo tal como esticar-se na cama e mudar o lado não cansado, aliviando-se com a mudança de posição. O mesmo ocorria com o Aquiles de Homero, ora deitado de bruços, ora de costa, acomodando-se em varias posições por ser próprio do enfermo nada tolerar, por muito tempo.
Por isso ele faz da mudança um lenitivo.
Daí aquelas excursões sem destino definido e aqueles giros por praias ignotas ou por mares ou por terra em busca de experiências oposta ao que ocorre no fastio da situação presente.
Então aqueles apelos: “agora, vamos para campanha”  já enjoado das branduras da vida, outro apelo: “Vamos visitar regiões selvagens, o Brúcio e a Lacônia com suas florestas”.
Verdade que algo de ameno desfruta-se naquelas paragens desertas, onde os olhos ardentes de prazer recreiam-se na selvageria de regiões inóspitas.
E ainda “vamos para Táranto, com o seu porto e o seu inverno de brandura, naquela região opulenta que sustentou seu povo de outrora.”
Ou então: “retornemos para Urbe. Já faz tempo que nossos ouvidos estão distante dos estrépitos aplausos e da algazarra dos circos. Sentimos até saudade de ver derramar sangue humano”.
Assim uma viagem após outra e um espetáculo que sucede ao outro. Como diz Lucrécio: desse modo cada um foge de si mesmo”,
Para que fugir, se não nos podemos evitar?
Já que seguimos sempre a nós mesmos, dessa intolerável companhia jamais nos desembaraçaremos!
Para concluir, estejamos bem conscientes do seguinte: o mal de que padecemos não provém dos lugares e, sim, de nós mesmos; somos fracos para tolerar qualquer incômodo; incapazes de aturar, por longo tempo, trabalho, prazeres e qualquer desconforto.
Isso levou muitos á morte porque as mudanças, indefinidamente, retornam para os ponto de partida, sem deixar perspectiva de novidade.

Daí advém o nojo pela vida e pelo mundo. Eis quando explode aquele clamor “Até quando sempre as mesmas coisas”.

Texto extraído da coleção: grandes obras do pensamento universal – 53 (Sêneca – A tranquilidade da alma / A vida Retirada)

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