Dessa aversão pelo sucesso dos outros e do desespero por
causa dos próprios fracassos, a lama irrita-se contra a sorte e queixa-se do
século.
Enquanto se recolhe num canto e, ai, censura a própria
penalidade porque sente canseira e até asco de si mesmo. Tudo isso decorre do
fato de ser a alma humana de natureza ativa e propensa para o movimento. Toda
oportunidade de exercitar-se e distrai-se é lhe grata. Mais gratificante ainda
para certos temperamentos dissolutos que se aliviam com a confusão em seus
afazeres.
Tal como algumas feridas incitam o contato das mãos que as
irritam ou tal como o corpo tomado pela sarna se compraz com o gesto de coçar.
Assim diria eu que, nessas mentes, a modo de chagas, brotam malévolas paixões
cujo tormento equivale á sensação do prazer.
Existem, com efeito, certas coisas que, mesmo sob incômodo,
dão prazer ao corpo tal como esticar-se na cama e mudar o lado não cansado,
aliviando-se com a mudança de posição. O mesmo ocorria com o Aquiles de Homero,
ora deitado de bruços, ora de costa, acomodando-se em varias posições por ser
próprio do enfermo nada tolerar, por muito tempo.
Por isso ele faz da mudança um lenitivo.
Daí aquelas excursões sem destino definido e aqueles giros
por praias ignotas ou por mares ou por terra em busca de experiências oposta ao
que ocorre no fastio da situação presente.
Então aqueles apelos: “agora, vamos para campanha” já enjoado das branduras da vida, outro
apelo: “Vamos visitar regiões selvagens, o Brúcio e a Lacônia com suas
florestas”.
Verdade que algo de ameno desfruta-se naquelas paragens
desertas, onde os olhos ardentes de prazer recreiam-se na selvageria de regiões
inóspitas.
E ainda “vamos para Táranto, com o seu porto e o seu inverno
de brandura, naquela região opulenta que sustentou seu povo de outrora.”
Ou então: “retornemos para Urbe. Já faz tempo que nossos
ouvidos estão distante dos estrépitos aplausos e da algazarra dos circos.
Sentimos até saudade de ver derramar sangue humano”.
Assim uma viagem após outra e um espetáculo que sucede ao
outro. Como diz Lucrécio: desse modo cada um foge de si mesmo”,
Para que fugir, se não nos podemos evitar?
Já que seguimos sempre a nós mesmos, dessa intolerável
companhia jamais nos desembaraçaremos!
Para concluir, estejamos bem conscientes do seguinte: o mal
de que padecemos não provém dos lugares e, sim, de nós mesmos; somos fracos
para tolerar qualquer incômodo; incapazes de aturar, por longo tempo, trabalho,
prazeres e qualquer desconforto.
Isso levou muitos á morte porque as mudanças,
indefinidamente, retornam para os ponto de partida, sem deixar perspectiva de
novidade.
Daí advém o nojo pela vida e pelo mundo. Eis quando explode
aquele clamor “Até quando sempre as mesmas coisas”.
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