Ser livre pressupõe uma responsabilidade difícil de
suportar perante a opressão de nossa líquida vida social, cada vez mais diluída
na ausência de uma autêntica compreensão e valorização da figura do “outro”,
que é sempre imputado como o estranho, jamais um potencial indivíduo capaz de
interação. As parcerias não se fortalecem e os medos não se dissipam. A grande
ameaça, no contexto amoroso, decorre da incapacidade de compreendermos o valor
afetivo de nossos interlocutores. Conforme diz Zygmunt Bauman (1925) acerca
dessa dinâmica afetiva, “é preciso diluir as relações para que possamos
consumi-las”.
Não nos permitimos vivenciar o amor pleno, por medo
de sermos usados no máximo das nossas capacidades e posteriormente descartados. Afinal, não queremos ser violentados afetivamente pelo desgosto da desilusão
sentimental. Segundo Anthony Giddens (1938), “para que um relacionamento tenha
a probabilidade de durar, é necessário o compromisso; mas qualquer um que se
comprometa sem reservas arrisca-se a sofrer muito no futuro, no caso de o
relacionamento vir a se dissolver”.
Preferimos então abrir mão das relações amorosas
concretas para adentrarmos na dimensão das relações virtuais que, em si, são
reais, mas desprovidas do “olho no olho” que caracteriza as experiências éticas
mais profundas, regidas pela capacidade de se lidar adequadamente com a
presença do outro diante de nós. Evitamos assim a intimidade indesejável da
presença do parceiro quando este se torna enfadonho ao nosso gosto. O desgaste
decorrente da relação interpessoal é suprimido com um clique no botão do
computador.
O FILME Brilho
Eterno de uma Mente sem Lembranças, dirigido por Michel Gondry, retrata a
fragilidade dos relacionamentos. Com o gradativo aumento da intimidade, um
deseja se livrar do outro, no eterno imbróglio de se dar bem, até perceberem
que o par possível só pode ser o ser humano em sua oscilante acepção
O interlocutor se torna uma mera imagem sensual a
ser consumida e ejetada sem maiores delongas do círculo de contatos e do próprio
âmbito da percepção pessoal. Pessoas retraídas se tornam poderosamente
sedutoras através da mediação eletrônica, conseguindo extravasar as disposições
sensuais que permaneceriam recalcadas em circunstâncias concretas. A assepsia
das relações virtuais e a descartabilidade do que Bauman denomina como
“relacionamentos de bolso” são a tônica do “amor líquido”, pois podemos dispor
deles quando necessário e depois tornar a guardá-los. Os ditos “relacionamentos
virtuais” são assépticos e descartáveis, e não exigem o compromisso efetivo de
nenhuma das partes pretensamente envolvidas nessa interação eletrônica. Tal
como apontado por Eva Illouz (1961), “a internet dificulta muito mais um dos
componentes centrais da sociabilidade, qual seja, a nossa capacidade de
negociar com nós mesmos, continua mente, os termos em que nos dispomos a
estabelecer relações com os outros [...] A internet proporciona um tipo de
conhecimento que, por estar desinserido e desvinculado de um conhecimento
contextual e prático da outra pessoa, não pode ser usado para compreendê-la
como um todo”.
Ao adentrar o
universo das relações virtuais, buscamos evitar a intimidade indesejável da presença
do parceiro quando este se torna enfadonho ao nosso gosto
As facilidades comunicacionais das nossas convergências
midiáticas, em vez de favorecem o aumento de participação na esfera pública,
geram um curioso efeito reverso de acomodamento social dos indivíduos, cada vez
mais embotados pelo amálgama de informações que são reproduzidas diariamente
pela estrutura midiática. As redes sociais, que, utilizadas de maneira crítica
e consciente, promovem mecanismos de politização e interatividade interpessoal,
na dinâmica do “amor líquido” se tornam apenas utensílios quantitativos para a
ampliação do número de amigos. Temos milhares de amigos nas redes sociais, mas
nem sequer cumprimentamos muitos deles ao defrontá-los no cotidiano; temos
amigos em diversas partes do planeta, mas somos incapazes de olhar de maneira
humana para o nosso vizinho, muito menos para o homem da rua que perpetua
cotidianamente sua penúria.
O medo do vazio da vida e a incapacidade do homem em lidar com o
sentimento de perda e de desapego são algumas das motivações existenciais para
a configuração do “amor líquido”, atrelado ao dispositivo que impõe a cada
pessoa, submetida ao padrão totalitário de consumo, a necessidade de gozar a
todo custo, ainda que em detrimento da humanidade do outro. Para Enrique Rojas
(1949), “é preciso construir uma nova pedagogia do amor, partindo de nós
próprios e não do prazer sexual colocado à frente do amor. É justamente essa
tergiversação de palavras que nos levou a um consumo de sexo que se afasta do sentido
profundo do encontro amoroso. O parceiro nas relações sexuais não tem
importância como pessoa, só existe como corpo”17.
A degradação da condição humana na experiência amorosa da
sociedade tecnocrática provém da manifestação do medo social diante da incerteza
em relação ao futuro cada vez mais problemático, assim como expressão da incapacidade
humana de aceitar desafios, arriscar o desconhecido, vivenciar a intensidade
do amor; o amor somente se realiza satisfatoriamente quando as partes
envolvidas na relação visam no ser do parceiro um salutar complemento
existencial, e não um suporte para o preenchimento do vazio interior produzido
pela participação em uma realidade degradante. Para Bauman, “a incerteza é o
habitat natural da vida humana – ainda que a esperança de escapar da incerteza
seja o motor das atividades humanas. Escapar da incerteza é um ingrediente
fundamental, mesmo que apenas tacitamente presumido, de todas e quaisquer
imagens compósitas da felicidade. É por isso que a felicidade “genuína”
adequada e total sempre parece residir em algum lugar à frente: tal como o
horizonte, que recua quando se tenta chegar mais perto dele”.