sábado, 27 de agosto de 2016

TOADA DO AMOR



E o amor sempre nessa toada:
  Briga, perdoa! perdoa briga
    Não se deve xingar a vida,
      A gente vive, depois esquece,
        Só o amor volta para brigar,
          Para perdoar.
            Amor cachorro bandido trem.
              Mas se não fosse ele, também
                Que graça que a vida tinha?
                  Mariquita, dá cá o pito,

                    No teu pito está o infinito.

sábado, 20 de agosto de 2016

ROMARIA



Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos, cheia de pedras,
Sobem a ladeira que leva a deus
E vão deixando culpas no caminho
Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados,
Já estamos puros, sino, obrigados,
Mas trazemos flores, prendas e rezas.
No alto do morro chega a procissão um leproso que empunha o estandarte,
As coxas das romeiras brincam no vento
Os homens cantam, cantam sem parar.
Jesus no ninho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra. Nos olhos do santo há sangue que escorre,
Ninguém não percebe, o dia é de festa.
No adro da igreja há pinga, café, imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
E um sol imenso que lambuza de ouro, o pó das feridas e o pó das mulatas.
Meu bom jesus que tudo podeis, humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, senhor, e não desta lepra, do amor que eu tenho e que ninguém me tem.
Senhor, meu amo, daí-me dinheiro, muito dinheiro para eu comprar,
Aquilo que é caro mais é gostoso e na minha terra ninguém possui.
Jesus meu Deus pregado na cruz, me dá coragem para eu matar
Um que me amola de dia e de noite e diz gracinhas a minha mulher.
Jesus, jesus piedade de mim. Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Porque me perseguem não posso dizer. Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.
Os romeiros pedem com os olhos, pedem com a boca, pedem com as mãos.

Jesus já cansado de tanto pedido, dorme sonhando com outra humanidade.

domingo, 14 de agosto de 2016

Epigrama para Emílio Moura



Epigrama para Emílio Moura
Tristeza de ver a tarde cair
Como cai uma folha,
(no Brasil não há outono mas as folhas caem.)
Tristeza de comprar um beijo
Como quem compra jornal.
Os que amam sem amor
Não terão o reino dos  céus.
Tristeza de guardar um segredo
Que todos sabem
E como contar a ninguém

(que esta vida não presta).

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Sesta (Carlos Drummond)



Sesta
A família mineira esta quentando sol,
Sentada no chão, calada e feliz.
O filho mais moço, olha para o céu
Para o sol não!
Para o cacho de bananas, corta ele pai!
O pai corta o cacho e distribui para todos,
A família mineira esta comendo bananas.
A filha mais velha coça uma pereba bem acima do joelho,
A saia não esconde a coxa morena, sólida construída.
Mais ninguém repara.
Os olhos se perdem na linha ondulada do horizonte próximo,
(a cerca da horta). A família mineira olha para dentro.
O filho mais velho canta uma cantiga,
Nem triste nem alegre, uma cantiga apenas, mole que adormece.
Só um mosquito rápido mostra inquietação,
O filho mais moço ergue o braço rude enxota o importuno.
A família mineira esta dormindo no sol.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Tabacaria (Pessoa)



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.


Fernando Pessoa