sábado, 31 de dezembro de 2016

A tradição do Novo Ano


A tradição do novo ano.

A tradição da passagem do ano entre os povos de quaisquer países diferenciam se muito pouco, geralmente essa passagem e realizada com muita festa, alegria, desejos e renovação de esperanças! São esperanças de sonhos que em grande parte já foram realizados e alguns que não poderão ser!
Geralmente deseja-se: saúde, paz e amor, são pedidos que em uma reflexão mais realista, iremos descobrir a incoerência.
É por qual motivo vão ser incoerentes?
No 1º caso, saúde é á ausência da doença! Salvo raras exceções em que se deseja o restabelecimento da mesma para alguém que esta enferma e nesse caso o desejo se justifica.
No 2º caso; Pede se Paz! Hora só se fala de paz quando se esta em guerra! Guerra que supõem ser contra algo ou alguém e me parece ser este algo ou alguém que só acontece devido intolerância com o outro
E finalmente o 3º caso; Amor!
Há o amor... Como podemos falar e desejar amor, se não aprendemos a amar a nos mesmos! Queremos amor! Mais dificilmente o damos na mesma proporção, amamos de varias formas e quase nunca entendemos a forma como somos amados.

Dessa forma o que desejo para os que se aventuraram a ler estas linhas e que: neste próximo ano e nos demais em que vivermos neste planeta, pratiquem um pouco mais da retórica que diz: não faça com o outro o que não gostaria que fizessem consigo próprio, e se esforcem para fazer de 2017 um ano em que ao final dele você esteja bem com você mesmo.A

domingo, 27 de novembro de 2016

Nota Social


NOTA SOCIAL
O poeta chega na estação.
O poeta desembarca,
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
Como qualquer homem da terra,
Uma ovação o persegue
Feito vaia.
Bandeirolas
Abrem alas,
Bandas de musicas, Foguetes.
Discursos, povo de chapéu de palha.
Maquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis
Bravos...
O poeta está melancólico.
Numa arvore do passeio publico
(melhoramento da atual administração)
Arvore gorda, prisioneira
De anúncios coloridos,
Arvore banal, arvore que ninguém vê
Canta uma cigarra, que ninguém ouve
Um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.
O poeta entra no elevador
O poeta sobe
O poeta fecha-se no quarto.

O poeta está melancólico.

sábado, 5 de novembro de 2016

poema de jornal



POEMA DO JORNAL
  O fato não acabou de acontecer
    E já a mão nervosa do repórter
      O transforma em noticia,
        O marido esta matando a mulher,
          A mulher ensangüentada grita.
            Ladrões arrombam o cofre,
              A polícia dissolve o meeting.
                A pena escreve.

Vem da sala de linotipos a doce musica mecânica

domingo, 30 de outubro de 2016

Nota Social


NOTA SOCIAL

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca,
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
Como qualquer homem da terra,
Uma ovação o persegue
Feito vaia.
Bandeirolas
Abrem alas,
Bandas de musicas, Foguetes.
Discursos, povo de chapéu de palha.
Maquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis
Bravos...
O poeta está melancólico.
Numa arvore do passeio publico
(melhoramento da atual administração)
Arvore gorda, prisioneira
De anúncios coloridos,
Arvore banal, arvore que ninguém vê
Canta uma cigarra, que ninguém ouve
Um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.
O poeta entra no elevador
O poeta sobe
O poeta fecha-se no quarto.

O poeta está melancólico.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Politica


POLITICA

Mario Casasanta
Vivia jogado em casa
Os amigos o abandonaram
Quando romperam com o chefe político.
O jornal governista ridicularizava seus versos,
Os versos que ele sabia bons
Sentia-se diminuído na sua gloria
Enquanto crescia a dos rivais
Que apoiavam a câmara em exercício
Entrou a tomar porres
Violentos, diários.
E a desleixar os versos.
Se já não tinha discípulos,
Se só os outros poetas eram imitados,
Uma ocasião em que não tinha dinheiro
Para tomar o seu conhaque
Saiu á toa pelas ruas escuras.
Parou na ponte sobre o rio moroso.
O rio que lá embaixo pouco se importava com ele
E, no entanto o chamava
Para misteriosos carnavais.
E teve vontade de se atirar
(só vontade)
Depois voltou para casa
Livre, sem correntes
Muito livre, infinitamente
Livre livre livre que nem uma besta

Que nem uma coisa.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Sweet Home



SWEET HOME

Quebra-luz, aconchego
Teu braço morno me envolvendo
A fumaça de meu cachimbo subindo.
Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês
O jornal conta historias, mentiras...
Ora afinal a vida é um bruto romance
E nós vivemos folhetins sem o saber.
Mas surge o imenso chá com torradas,
Chá de minha burguesia contente.
Ó gozo de minha poltrona!
Ó doçura de folhetim!

Ó bocejo de felicidade!

sábado, 1 de outubro de 2016

Esperteza / No meio do Caminho



ESPERTEZA
Tenho vontade de – ponhamos amar
Por esporte uma loura o espaço de um dia.
Certo me tornaria brinquedo nas suas mãos.
Apanharia, sorriria
Mas acabado o jogo
Não seria mais joguete,
Seria eu mesmo.
E ela ficaria espantada

De ver um homem esperto.

                          


                      NO MEIO DO CAMINHO
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra

domingo, 25 de setembro de 2016

Natal / Politica Literária


Natal,
O sino longe toca fino
Não tem neves, não tem gelos.
Natal
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
Encontraram o coitadinho
(Natal)
Mais o boi mais o burrinho e lá em cima a estrelinha alumiando
Natal.
As beatas ajoelharam
E adoraram o deus nuzinho
Mas as filhas das beatas
E os namorados das filhas,
Mas as filhas das beatas
Foram dançar Black-bottom
Nos clubes sem presépios.

O poeta municipal
Discute com o poeta estadual
Qual deles e capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal

Tira ouro do nariz.



domingo, 18 de setembro de 2016

A Rua Diferente:




Na minha rua estão cortando árvores
Botando trilhos
Construindo casas.
Minha rua acordou mudada.
Os vizinhos não se conformam
Eles não sabem que a vida
Tem dessas exigências brutas

So minha filha goza o espetáculo
E se diverte com os andaimes
A luz da solda autógena

E o cimento escorrendo nas formas.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Lagoa



Não vi o mar,
  Não sei se o mar é bonito
    Não sei se ele e bravo
      O mar não me importa.
Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim
A lagoa é grande
E calma também
    Na chuva de cores da tarde que explode
      A lagoa brilha
        A lagoa se pinta
          De todas as cores
            Eu não vi o mar.

              Eu vi a lagoa...

sábado, 10 de setembro de 2016

Construção / Forma de Purificação (dose Dupla)



Construção:

Um grito pula no ar como foguete,
 Vem da paisagem de barro úmido, caliça e andaimes hirtos,
  O sol cai sobre as coisas em placa fervendo
   O sorveteiro corta a rua
    E o vento brinca nos bigodes do construtor.


Forma de purificação


Depois de tantos combates o anjo bom matou o anjo mau
E jogou seu corpo no rio.
As águas ficaram tintas, de um sangue que não descorava
E os peixes todos morreram.
Mais uma luz que ninguém soube dizer de onde tinha vindo
Apareceu para clarear o mundo.

O outro anjo pensou a ferida do anjo batalhador.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Europa, França e Bahia


Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo.
Os cais bolorentos de livros judeus
E a água suja do Sena escorrendo sabedoria.
O pulo da mancha num segundo.
Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas.
Tarifas bancos fabricas trustes craques,
Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas
Formam um tapete para sua graciosa Majestade Britânica pisar.
E a lua de Londres como um remorso.
Submarinos inúteis retalham mares vencidos.
O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos arruinados
Hamburgo, embigo do mundo
Homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros dentro de alguns anos.
A Itália explora conscienciosamente vulcões apagados, vulcões que nunca estiveram acesos.
 A não ser na cabeça de Mussolini.
E a Suíça cândida se oferece
Numa coleção de postais de altitudes altíssimas.
Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa.
Não há mais Turquia.
O impossível dos serralhos esfacela erotismos prestes a deslanchar.
Mas a Rússia tem as cores da vida.
A Rússia é vermelha e branca.
Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista e no túmulo de Lenin em Moscou parece que um coração enorme está batendo, batendo mas não bate igual ao da gente....
Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a “Canção do Exílio”.
Como era mesmo a “Canção do Exílio”?
Eu tão esquecido de minha terra...

Ai terra que tem palmeiras onde canta o sabiá.

sábado, 27 de agosto de 2016

TOADA DO AMOR



E o amor sempre nessa toada:
  Briga, perdoa! perdoa briga
    Não se deve xingar a vida,
      A gente vive, depois esquece,
        Só o amor volta para brigar,
          Para perdoar.
            Amor cachorro bandido trem.
              Mas se não fosse ele, também
                Que graça que a vida tinha?
                  Mariquita, dá cá o pito,

                    No teu pito está o infinito.

sábado, 20 de agosto de 2016

ROMARIA



Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos, cheia de pedras,
Sobem a ladeira que leva a deus
E vão deixando culpas no caminho
Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados,
Já estamos puros, sino, obrigados,
Mas trazemos flores, prendas e rezas.
No alto do morro chega a procissão um leproso que empunha o estandarte,
As coxas das romeiras brincam no vento
Os homens cantam, cantam sem parar.
Jesus no ninho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra. Nos olhos do santo há sangue que escorre,
Ninguém não percebe, o dia é de festa.
No adro da igreja há pinga, café, imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
E um sol imenso que lambuza de ouro, o pó das feridas e o pó das mulatas.
Meu bom jesus que tudo podeis, humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, senhor, e não desta lepra, do amor que eu tenho e que ninguém me tem.
Senhor, meu amo, daí-me dinheiro, muito dinheiro para eu comprar,
Aquilo que é caro mais é gostoso e na minha terra ninguém possui.
Jesus meu Deus pregado na cruz, me dá coragem para eu matar
Um que me amola de dia e de noite e diz gracinhas a minha mulher.
Jesus, jesus piedade de mim. Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Porque me perseguem não posso dizer. Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.
Os romeiros pedem com os olhos, pedem com a boca, pedem com as mãos.

Jesus já cansado de tanto pedido, dorme sonhando com outra humanidade.

domingo, 14 de agosto de 2016

Epigrama para Emílio Moura



Epigrama para Emílio Moura
Tristeza de ver a tarde cair
Como cai uma folha,
(no Brasil não há outono mas as folhas caem.)
Tristeza de comprar um beijo
Como quem compra jornal.
Os que amam sem amor
Não terão o reino dos  céus.
Tristeza de guardar um segredo
Que todos sabem
E como contar a ninguém

(que esta vida não presta).

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Sesta (Carlos Drummond)



Sesta
A família mineira esta quentando sol,
Sentada no chão, calada e feliz.
O filho mais moço, olha para o céu
Para o sol não!
Para o cacho de bananas, corta ele pai!
O pai corta o cacho e distribui para todos,
A família mineira esta comendo bananas.
A filha mais velha coça uma pereba bem acima do joelho,
A saia não esconde a coxa morena, sólida construída.
Mais ninguém repara.
Os olhos se perdem na linha ondulada do horizonte próximo,
(a cerca da horta). A família mineira olha para dentro.
O filho mais velho canta uma cantiga,
Nem triste nem alegre, uma cantiga apenas, mole que adormece.
Só um mosquito rápido mostra inquietação,
O filho mais moço ergue o braço rude enxota o importuno.
A família mineira esta dormindo no sol.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Tabacaria (Pessoa)



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.


Fernando Pessoa

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Explicação:



Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça!
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
Folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a deus como para aliviar o peito,
Queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos é que faço meu verso.
E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre...
Ele ás vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
Eu bem me entendo. Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa e das sombras das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
A dizem que ando na rua de olhos baixo para que ninguém desconfie
Ninguém perceba que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo a fita de Hoost Gibson, de repente ouço a voz de uma viola...
Saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
A beira do São Francisco, do Paraíba ou qualquer córrego vagabundo,
É sempre a mesma sem-si-bi-li-da-de,
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais é muito interessante.
Quem me faz assim foi minha gente e minha terra
E eu gosto bem de ter nascido com essa tara,
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa e uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
E tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O Francês, o italiano, o judeu falam uma linguá de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
Lê o seu jornal, mete a língua no governo, quixa-se da  vida (a vida está tão cara)
E no fim da certo.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.

Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta!

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Outubro de 1930


Outubro de 1930
Suores misturados no silencio noturno
O companheiro ronca.
O ruido igual dos tiros e o silencio na sala onde os corpos são coisas escuras.
O soldado deitado pensando na morte.
De 5 em 5 minutos um ciclista trazia ao Estado- Maior um feixe de telegramas contendo
Comprimida, a trepidação dos setores. O radiotelegrafista ora triste ora alegre empunhava um papel que era
A vitoria ou a derrota. Nós descansávamos,  jogados sobre poltronas, e abríamos para as noticias olhos que não viam, olhos que perguntavam, ás 3 da madrugada, pontualmente, começava o tiroteio.
O funcionário deitado não pensa na morte,
Pensa no amor tornado impossível no minuto guerreiro,
E fecha os olhos para ver bem
O amor com sua espada de fogo sobre a cabeça
De todos os homens, legalistas, rebeldes.
O inimigo resistia sempre e foi preciso cortar a água do quartel,
Como resistisse ainda, a água circulou de novo, desta vez azul, de metileno.
A torneira aberta escorre desinfetante, o canhão fabricado em Minas – suave temperamento local – não disparou.
Olha a negra, olha a negra, a negra fugindo com a trouxa de roupa,
Olha a negra no chão, e o cadáver com os seios enormes, expostos, inúteis.
O general com seus bigodes tumultuosos, era o mais doce dos seres,  e destilava  uma ternura vaporosa em seu hábito de usar culote sem perneiras. A um canto do salão atulhado de mapas e em que telefones esticados  Retiniam trazendo fatos, levando ordens, eu fazia, exercício fácil, a caricatura do seu imenso nariz. Que todos acharam ótima e reprovaram com indignação cívica.
A esta hora no Recife,
Em Guaxupé, Turvo, jaguara, Itararé,
Baixo Guandu, Igarapava, Chiador,
Homens estão se matando com as necessárias cautelas.
Pelo Brasil inteiro há tiros, granadas,
Literatura explosiva de boletins,
Mulheres carinhosas cosendo fardas
Com bolsos onde estudantes guardarão retratos
Das respectivas, longínquas namoradas,
Homens preparando discursos,
Outros, coleítes, captando rádios,
Minando pontes,
Outros (são governadores) dando o fora,
Pedidos de comissionamento
Por atos de bravura, ordens do dia,
“ o inimigo retirou-se em fuga precipitada,
Deixando abundante material bélico, Cinco mortos e vinte feridos...”
Um novo, claro Brasil surge, indeciso, da pólvora.
Meu deus, tomai conta de nós
Deus vela o sono dos Brasileiros.
Anjos alvíssimos espreitam a hora de apagar a luz de teu quarto
Para abrirem sobre ti as asas que afugentam os maus espíritos e purificam os sonhos.
Deus vela o sono e o sonho dos brasileiros.

Mais eles acordam e brigam de novo.

sábado, 23 de julho de 2016

Iniciação Amorosa



A rede entre duas mangueiras
Balançava no mundo profundo.

O dia era quente, sem vento
O sol lá em cima,
As folhas no meio
O dia era quente

E como eu não tinha nada que fazer vivia namorando
(as pernas morena da lavadeira)
Um dia ela veio para a rede
Se enroscou nos meus braços,
Me deu um abraço
Me deu as maminhas
Que eram só minhas
A rede virou,
O mundo afundou.

Depois fui para cama
Febre 40 graus febre.

Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas, girava no espaço verde.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Elegia do rei de Sião



Pobre rei de Sião que morreu de desgosto
Por não ter um filho varão.
Pobre rei de bankok educado em Oxford,
Pequenino, bonito, decorativo
Que morreu especialmente para nos comover,
Filho que desejava, a Ásia não deu
E seu desejo de um filho era maior do que a Ásia.
Pobre rei de Sião, que camões não cantou.
Amou três mulheres em vez de dez mil
E nenhuma lhe deu um filho varão.
De sua costela real nasceu uma pequenina siamesa.
Ao vê-la, o rei caiu para trás como um europeu,
Adoeceu, bebeu um veneno terrível e morreu.
Seu coração enegreceu de repente,
O corpo ficou todo fofo.
Depois queimaram o corpo fofo e o coração preto numa fogueira esplêndida
E a alma do rei de Sião fugiu entre os canais.

Pobre reizinho de Sião.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Cabaré mineiro:




A dançarina espanhola de Montes Claros
  Dança e redança na sala mestiça.
    Cem olhos morenos estão despidos
      Seu corpo gordo picado de mosquito,
        Tem um sinal de bala na coxa direita,
          O riso postiço de um dente de ouro,
            Mas é linda, gorda e satisfeita,
              Como rebola as nádegas amarelas!
                Cem olhos brasileiros estão seguindo

                  O balanço doce e mole de suas tetas...

terça-feira, 19 de julho de 2016

Sociedade



O homem disse para o amigo:
 -breve irei a tua casa,
E levarei minha mulher!

O amigo enfeitou a casa

E quando o homem chegou com a mulher,
Soltou uma duzia de foguetes.

O homem comeu e bebeu,
A mulher bebeu e cantou,
Os dois dançaram,

O amigo estava muito satisfeito,
Quando foi a hora de sair,
O amigo disse para o homem;
 - Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.

No caminho o homem resmungou:
 - Ora essa, era o que faltava,
E a mulher ajunta; - que idiota,

 - a casa é um ninho de pulgas,
 - reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.

E todas as quintas-feiras
Eles voltam a casa do amigo

Que ainda não pode retribuir a visita.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Quero me Casar



Quero me casar:
  Quero me casar
    Na noite na rua
      No mar ou no céu
        Quero me casar.

            Procuro uma noiva
              Loura ou morena
                Preta ou azul
                  Uma noiva verde
                    Uma noiva no ar
                      Como um passarinho,

                          Depressa que o amor

                            Não pode esperar!

sábado, 16 de julho de 2016

Balada do amor atraves das idades



Eu te gosto, você me gosta
Desde tempos imemoriais
Eu era grego, você troiana,
Troiana mas não Helena.
Sai do cavalo de pau
Para matar seu irmão,
Matei, brigamos, morremos.

Virei soldado romano,
Perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
Encontrei-te novamente
Mas quando vi você nua
Caida na areia do circo
E o leão que vinha rugindo
Dei um pulo desesperado
E o leão comeu nos dois.

Depois fui pirata mouro,
Flagelo da tripolitânia  
Toquei fogo na fragata
Onde você se escondia
Da furia de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
E te fazer minha escrava
Você fez o sinal da cruz
E rasgou o peito a punal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
Fui cortesão de versailles,
Espirituoso e devasso
Você cismou de ser freira...
Pulei muro do convento
Mas complicações politicas
Nos levaram a guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
Remo, pulo, danço, boxo
Tenho dinheiro no banco
Você é uma loura notável
Boxa, dança, pula, rema,
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripércias
Eu, heroi da paramount,

Te abraço, beijo e casamos

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Felicidade?


“O objetivo para o qual o principio do prazer nos impele – o de nos tornarmos                             felizes – não é atingível; 
contudo, não podemos – ou melhor, não temos o direito – de desistir do esforço da sua realização de uma maneira ou de outra. Caminhos muito diferentes podem ser seguidos para isso;  alguns dedicam-se ao aspecto positivo do objetivo, o atingir do prazer; outros o negativo, o evitar da dor, por nenhum destes caminhos conseguimos atingir tudo que desejamos. Naquele sentido modificado em que vimos que era atingível, a felicidade é um problema de gestão da libido em cada individuo.
Não há uma receita soberana nesta matéria que sirva para todos; cada um deve descobrir por si qual o método através do qual poderá alcançar a felicidade.
Toda a espécie de factores ira influenciar a sua escolha. Depende da quantidade de satisfação real que ele ira encontrar no mundo externo, e ate onde acha necessário torna-se independente dele. Por fim, na confiança que tem em si próprio do seu poder de modificar conforme os seus desejos. Mesmo nesta fase, a constituição mental do individuo tem um papel decisivo, para alem de quaisquer considerações externas. O homem que é predominantemente erótico irá escolher em primeiro lugar relações emocionais com os outros; o tipo narcisista, que é mais auto-suficiente, procurará a sua satisfação essencial no trabalho interior da sua alma; o homem de ação nunca abandonará o mundo externo no qual pode experimentar o seu poder”.



(Sigmund Freud, in Á civilização e os seus descontentamentos).

domingo, 19 de junho de 2016

Jardim da praça da liberdade:





Verdes bulindo.
Sonata caridosa da água
Fugindo entre rosas geométricas.
Ventos Elísio.
Macio,

Jardim tão pouco brasileiro...mas tão lindo.
Paisagem sem fundo,
A terra não sofreu para dar estas flores

Sem ressonância. O minuto que passa
Desabrochando em floração inconsciente,
Bonito demais, sem humanidade, Literário demais.
(pobres jardins do meu sertão,

Atrás da serra do curral!
Nem repuxos frio nem tanques langues,
Nem bombas nem jardineiros oficiais,
Só o mato crescendo indiferente entre sempre-vivas desbotadas
E o olhar desditoso da moça desfolhando malmequeres.)

Jardim da praça da liberdade,
Versailles entre bondes,
Na moldura das secretarias compenetradas

A graça inteligente da relva
Compõe o sonho dos verdes.
Proibido pisar no gramado
Talvez fosse melhor dizer:

Proibido comer o gramado

A prefeitura vigilante
Vela a soneca das ervinhas.

E o capote preto do guarda é uma bandeira na noite estrelada de funcionários.
De repente uma banda preta
Vermelha retinta suando
Bate um dobrado batuta
Na doçura
Do jardim,

Repuxos espavoridos fugindo.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Familia



Três meninos e duas meninas,
Sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta , a copeira mulata,
O papagaio, o gato, o cachorro,
As galinhas gordas no palmo de horta
E a mulher que trata de tudo,

A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
O cigarro, o trabalho, a reza,
A goiaba na sobremesa de domingo,
O palito nos dentes contentes,
O gramofone rouco toda a noite
E a mulher que trata de tudo.

O agiota, o leiteiro, o turco
O médico uma vez por mês
O bilhete todas as semanas
Branco! Mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo

E a felicidade.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Lanterna Mágica:




Meus olhos têm melancolias,
Minha boca tem rugas,
Velha cidade!

As árvores tão repetidas,
Debaixo de cada árvore faço minha cama,

Em cada ramo dependuro  meu paletó,
Lirismo.

Pelos jardins versailles
Ingenuidade de velocípedes,
E o velho fraque

na casinha de alpendre com duas janelas dolorosas.

domingo, 12 de junho de 2016

Para Sempre


Por que Deus permite que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga, quando sopra o vento e chuva desaba,
veludo escondido na pele enrugada,
água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça, é eternidade.
Por que Deus se lembra — mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre junto de seu filho
e ele, velho embora, será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas' 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

FUGA (Carlos Drummond de Andrade)


As atitudes inefáveis
Os inexprimíveis delíquios,
Êxtases, espasmos, beatitudes
Não são possíveis no Brasil.

O poeta vai enchendo a mala,
Põe camisas, punhos, loções,
Um exemplo da imitação
A parte para outros rumos.

A vaia amarela dos papagaios
Rompe o silencio da despedida.
 - Se eu tivesse cinco mil pernas
(diz ele) fugia com todas elas.

Povo feio, moreno, bruto,
Não respeita meu fraque preto.
Na Europa reina a geometria
E todo mundo anda – como eu – de luto.

Estou de luto por Anatole
France, o de Thais, joia soberba.
Não há cocaína, não há morfina
Igual a essa divina
Papa-fina.

Vou perder-me nas mil orgias
Do pensamento Greco-latino
Museus! Estatuas! Catedrais!
O Brasil só tem canibais.

Dito isto fechou-se em copas,
Joga-lhe um mico uma banana,
Por um tico não vai ao fundo.

Enquanto os bárbaros sem barbas
Sob o Cruzeiro do Sul
Se entregam perdidamente
Sem anatólios nem capitólios

Aos deboches americanos.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Cidadezinha Qualquer


Casas entre bananeiras

Mulher entre laranjeiras

Pomar amor cantar.

Um homem vai devagar,

Um cachorro vai devagar,

Um burro vai devagar.

Devagar... As janelas olham


Eta vida besta meu deus.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Sonhador


Sonhador



Procurei por ti
Envolto nas sombras do meu passado,

Procurei por ti
Em rostos na perdida madrugada.

Procurei por ti
No velame da barca ajaezada.

Procurei por ti
Em rostos na perdida madrugada.

Procurei por ti
No todo, em tudo e em nada


Procurei por ti.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Moça e Soldado



Meus olhos espiam a rua que passa.
Passam mulheres, passam soldados,
Moça  bonita foi feita para namorar.
Soldado barbudo foi feito para brigar.

Meus olhos espiam as pernas que passam,
Nem todas são grossas... Meus olhos espiam.
Passam soldados, mas todas são pernas, meus olhos espiam,

Tambores, clarins e pernas que passam,
Meus olhos espiam

Soldados que marcham, moças bonitas
Soldados barbudos
...para namorar, para brigar.

Só eu não brigo, só eu não namoro.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Infância



Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras
Lia a historia de Robinson Crusoé
Cumprida historia que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
A ninar nos longes da senzala- e nunca se esqueceu
Chamava para o café.
Café gostoso
Café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
Olhando para mim:
- psiu... não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

La longe meu pai campeava
No mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha historia

Era mais bonita que a de Robinson Crusoé

terça-feira, 31 de maio de 2016

Cantata


Cantata


Para ser teu amado
Faço qualquer besteira
Corro supermercado
Escolho couve na feira

Marco hora no dentista
Levo você no meu carro
E se não der na vista
No caminho tiro um sarro

Para ser teu amado
Aceito qualquer condição
Praticar sempre um pecado
Sem salvação,

Te dou banho se quiseres
Faço massagens também,
Dou vivas ao santo daime
Viro Buda, viro zen

Conserto pia, chuveiro
Resolvo toda parada
Me faço de teu mordomo
Me faço tua empregada.
Ponho musica baixinho
Do ponti escolho um solo
Te dou todo meu carinho
Depois te levo no colo

Desejo, sim, meu amor
                                                               Pra minha vida esse fado
De tu seres minha amante

De eu ser o teu amado.

Ruy de Carvalho

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Quadrilha


Quadrilha:

João amava Teresa que amava Raimundo

Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

Que não amava ninguém.

João foi para os estados unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes


Que não tinha entrado na historia.

domingo, 29 de maio de 2016

Poema que acontecceu


Nenhum desejo neste domingo

Nenhum problema nesta vida

O mundo parou  de repente

Os homens ficaram calados

Domingo sem fim nem começo

A mão que escreve esse poema

Não sabe que esta escrevendo

Mas é possível que se soubesse


Nem ligasse.

sábado, 28 de maio de 2016

Eu Também já fui Brasileiro



Eu também já fui brasileiro
Moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde.
E aprendi nas mesas dos bares
Que o nacionalismo e uma virtude
Mas há uma hora em que os bares se fecham
E todas as virtudes se negam.
Eu também já fui poeta
Bastava olhar para mulher,
Pensava logo nas estrelas
E outros substantivos celestes
Mas eram tantas, o céu tamanho,
Minha poesia pertubou-se
Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isto, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
Meus inimigos me odiavam,
Eu irônico deslizava
Satisfeito de ter meu ritmo
Mas acabei confundindo tudo
Hoje não deslizo mais não
Não sou irônico mais não

Não tenho ritmo mais não.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sentimental



Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão.

No prato, a sopa esfria, cheia de escamas

E debruçados na mesa todos contemplam esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra, uma letra somente

Para acabar teu nome!

- está sonhando? Olha que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...

E há em todas as consciências um cartaz amarelo;


“Neste país é proibido sonhar.”

terça-feira, 24 de maio de 2016

Por teu amor



Sei que vou sofrer e chorar
A primitiva e derradeira lagrima
Que nunca tive
Por teu amor

Sei que amor e sangue estarão
Sempre contigo e comigo
Na bendita loucura que sonhei
Por teu amor

Sei que minhas mãos buscarão teu corpo
Na amarga noite do meu futuro
E encontrarão o nada absoluto
Das coisas que desejei
Por teu amor

Sei que vou beber a taca amarga
De um vazio interminável
Que  serão tuas ausências
E delas sofrerei

Sei que de tudo e muito mais
Mesmo que a mim viessem
Todas as dores do mundo
Ainda assim eu riria e cantaria
O canto mais amado
Por  teu amor

Sei também que os céus por onde ando
Sem ti, são o nada do nada
E tu criaturas sem fim, tu abitas em meu redor
Com teu cheiro, graça, sorisso,
Com a luz dos teus olhos
Com languidez do teu corpo,
Com a maciez e o leve arrepiar de tua pele
Com o calor que de ti emana
E nessa vontade de estar em ti
Eu vivo
Eu penso
Eu sofro
E morro

Por  teu amor.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Igreja


Tijolo
Areia
Andaime
Água
Tijolo
O canto dos homens trabalhando
Trabalhando mais perto do céu
Cada vez mais perto
Mais
 - a torre.
E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.
O padre que fala do inferno
Sem nunca ter ido lá.
Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos.
Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida.
A manhã pintou-se de azul
No adro ficou o ateu
No alto fica deus
Domingo...
Bem bão! Bem bão!

Os serafins, no meio, entoam quirieleisão.

domingo, 22 de maio de 2016

Saudades






A saudade é algo assim.
Uma agonia sem fim
Uma dor dentro da alma que chora dentro de mim
Saudade é um rio pequeno
Que corre pra junto do mar
É como a ilusão de um dia te encontrar
Saudade! Ah ! Saudade
Por que me atormentas tanto
Me deixas assim nesse pranto
Como um pássaro sem poder voar
Uma rosa sem perfume
Ninguém gosta de cheirar
Enfim, a saudade é tanta
Que me faz pensar
Que pra sentir saudade
Não precisa se esforçar

sábado, 21 de maio de 2016

para não esquecer Drummond (Cantiga de Viúvo)


Cantiga de viúvo

A noite caiu na minha alma,
Fiquei triste sem querer.
Uma sombra veio vindo; veio vindo me abraçou.
Era a sombra de meu bem, que morreu a tanto tempo.
Me abraçou com tanto amor me apertou com tanto fogo me beijou, me consolou.
Depois riu devagarinho, me disse adeus com a cabeça e saiu.
Fechou a porta; Ouvi seus passos na escada.

Depois mais nada...

sábado, 14 de maio de 2016

O descontentamento de si mesmo (parte 2)


Dessa aversão pelo sucesso dos outros e do desespero por causa dos próprios fracassos, a lama irrita-se contra a sorte e queixa-se do século.
Enquanto se recolhe num canto e, ai, censura a própria penalidade porque sente canseira e até asco de si mesmo. Tudo isso decorre do fato de ser a alma humana de natureza ativa e propensa para o movimento. Toda oportunidade de exercitar-se e distrai-se é lhe grata. Mais gratificante ainda para certos temperamentos dissolutos que se aliviam com a confusão em seus afazeres.
Tal como algumas feridas incitam o contato das mãos que as irritam ou tal como o corpo tomado pela sarna se compraz com o gesto de coçar. Assim diria eu que, nessas mentes, a modo de chagas, brotam malévolas paixões cujo tormento equivale á sensação do prazer.
Existem, com efeito, certas coisas que, mesmo sob incômodo, dão prazer ao corpo tal como esticar-se na cama e mudar o lado não cansado, aliviando-se com a mudança de posição. O mesmo ocorria com o Aquiles de Homero, ora deitado de bruços, ora de costa, acomodando-se em varias posições por ser próprio do enfermo nada tolerar, por muito tempo.
Por isso ele faz da mudança um lenitivo.
Daí aquelas excursões sem destino definido e aqueles giros por praias ignotas ou por mares ou por terra em busca de experiências oposta ao que ocorre no fastio da situação presente.
Então aqueles apelos: “agora, vamos para campanha”  já enjoado das branduras da vida, outro apelo: “Vamos visitar regiões selvagens, o Brúcio e a Lacônia com suas florestas”.
Verdade que algo de ameno desfruta-se naquelas paragens desertas, onde os olhos ardentes de prazer recreiam-se na selvageria de regiões inóspitas.
E ainda “vamos para Táranto, com o seu porto e o seu inverno de brandura, naquela região opulenta que sustentou seu povo de outrora.”
Ou então: “retornemos para Urbe. Já faz tempo que nossos ouvidos estão distante dos estrépitos aplausos e da algazarra dos circos. Sentimos até saudade de ver derramar sangue humano”.
Assim uma viagem após outra e um espetáculo que sucede ao outro. Como diz Lucrécio: desse modo cada um foge de si mesmo”,
Para que fugir, se não nos podemos evitar?
Já que seguimos sempre a nós mesmos, dessa intolerável companhia jamais nos desembaraçaremos!
Para concluir, estejamos bem conscientes do seguinte: o mal de que padecemos não provém dos lugares e, sim, de nós mesmos; somos fracos para tolerar qualquer incômodo; incapazes de aturar, por longo tempo, trabalho, prazeres e qualquer desconforto.
Isso levou muitos á morte porque as mudanças, indefinidamente, retornam para os ponto de partida, sem deixar perspectiva de novidade.

Daí advém o nojo pela vida e pelo mundo. Eis quando explode aquele clamor “Até quando sempre as mesmas coisas”.

Texto extraído da coleção: grandes obras do pensamento universal – 53 (Sêneca – A tranquilidade da alma / A vida Retirada)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O descontentamento de si mesmo. (parte 1)




Isso nasce das inclinações da alma ou da apetência tímida ou pouco realizável, já que não ousam a quanto desejam ou não conseguem. Assim, ficam repletos de expectativas sempre trepidantes. Ora, isso é típico dos irresolutos.

Realmente, eles tentam, por todos os meios, alcançar seus objetivos. Para suas praticas indecorosas e difíceis eles se instruem e incitam. Quando seu empenho fica frustrado, sofrem não por terem objetivado algo mau, mas por tê-lo almejado sem resultado.
Então eles ficam apreensivos, seja por causa do arrependimento de assim terem encetado a vida, seja pelo temor de reincidir.

Daí advém aquela agitação por não encontrarem bom resultado por quanto nem dominam os apetites nem a eles se submetem de todo. Decorre então aquela minguada expansão de vida e o consequente amolecimento de animo perante as frustrações de seus sonhos.

Todos os incômodos se agravam, quando, longe dessa molesta angústia, encontra-se refugio ou no ócio ou nos estudos solitários aos quais não consegue suportar um espírito aberto para assuntos públicos e devotado ás atividades porquanto, sendo de temperamento ativo e inquieto, pouco conforto encontra em si mesmo.

Assim, privado dos deleites que aquelas ocupações proporcionam a quantos as procuram, não suporta sequer a casa, o isolamento e as paredes.

Com desgosto, olha para si como um abandonado.

Daí aquele aborrecimento ou desgosto de si mesmo. Tal o desassossego de espírito que, em lugar algum, encontra repouso, sendo que, ali, projeta aquela aflitiva intolerância da própria inércia cujas razões não ousa confessar. Assim, aquelas suas ambições, encarceradas em sua estreiteza sem evasão, asfixia-se a si mesmo.

Daí advém tristeza, languidez e as mil flutuações de uma alma tomada pela indecisão.
Ela mantém em suspenso as expectativas suscitadas que se frustram na desolação.
Em consequência, a disposição de abominar o próprio repouso e de lamentar por nada ter o que fazer e também de invejar, com fúria, o sucesso alheio. Aliás, a inércia indesejada alimenta a inveja e ambiciona ver A todos malogrados porque não logrou ter seu êxito na vida.
 Texto extraído da coleção: grandes obras do pensamento universal – 53 (Sêneca – A tranquilidade da alma / A vida Retirada)




quarta-feira, 11 de maio de 2016

Para não esquecer Drummond (ou para lembrar) Casamento do céu e do inferno)



Casamento do céu e do inferno:

No azul do céu de metileno
A lua irônica
Diurética
É uma gravura da sala de jantar.
Anjos da guarda em expedição noturna
Velam sonos púberes
Espantando mosquitos
De cortinados e grinaldas,
Pela escada em aspiral
Diz que tem virgens tresmalhadas,
Incorporadas à via-láctea,
Vaga-lumeando...
Por uma frincha
O diabo espreita com o olho torto.
Diabo tem uma luneta
Que varre léguas de sete léguas
E tem o ouvido fino
Que nem violino.
São Pedro dorme
E o relógio do céu ronca mecânico.
Diabo espreita por uma frincha.
Lá embaixo
Suspiram bocas machucadas
Suspiram rezas! Suspiram manso,
De amor.
E os corpos enrolados
Ficam mais enrolados ainda
E a carne penetra na carne.
Que a vontade de deus se cumpra!
Tirante Laura e talvez Beatriz,

O resto vai para o inferno.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Para lembrar Drummond: (Poema das sete faces)



Poema de sete faces:

Quando nasci, um anjo torto.
Desses que vivem na sombra
Disse: vai, Carlos! Ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
Não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pernas amarelas.
Para que tanta perna, meu deus, pergunta meu coração.
Porem meus olhos
Não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
É serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Têm poucos, raros amigos.
O homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu deus, por que me abandonaste.
Se sabias que eu não era deus
Se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo  mundo vasto mundo,
Mais vasto e o meu coração
Eu não devia te dizer
Mas essa lua
Mas esse conhaque

Botam a gente comovido como o diabo.