segunda-feira, 20 de junho de 2016

Felicidade?


“O objetivo para o qual o principio do prazer nos impele – o de nos tornarmos                             felizes – não é atingível; 
contudo, não podemos – ou melhor, não temos o direito – de desistir do esforço da sua realização de uma maneira ou de outra. Caminhos muito diferentes podem ser seguidos para isso;  alguns dedicam-se ao aspecto positivo do objetivo, o atingir do prazer; outros o negativo, o evitar da dor, por nenhum destes caminhos conseguimos atingir tudo que desejamos. Naquele sentido modificado em que vimos que era atingível, a felicidade é um problema de gestão da libido em cada individuo.
Não há uma receita soberana nesta matéria que sirva para todos; cada um deve descobrir por si qual o método através do qual poderá alcançar a felicidade.
Toda a espécie de factores ira influenciar a sua escolha. Depende da quantidade de satisfação real que ele ira encontrar no mundo externo, e ate onde acha necessário torna-se independente dele. Por fim, na confiança que tem em si próprio do seu poder de modificar conforme os seus desejos. Mesmo nesta fase, a constituição mental do individuo tem um papel decisivo, para alem de quaisquer considerações externas. O homem que é predominantemente erótico irá escolher em primeiro lugar relações emocionais com os outros; o tipo narcisista, que é mais auto-suficiente, procurará a sua satisfação essencial no trabalho interior da sua alma; o homem de ação nunca abandonará o mundo externo no qual pode experimentar o seu poder”.



(Sigmund Freud, in Á civilização e os seus descontentamentos).

domingo, 19 de junho de 2016

Jardim da praça da liberdade:





Verdes bulindo.
Sonata caridosa da água
Fugindo entre rosas geométricas.
Ventos Elísio.
Macio,

Jardim tão pouco brasileiro...mas tão lindo.
Paisagem sem fundo,
A terra não sofreu para dar estas flores

Sem ressonância. O minuto que passa
Desabrochando em floração inconsciente,
Bonito demais, sem humanidade, Literário demais.
(pobres jardins do meu sertão,

Atrás da serra do curral!
Nem repuxos frio nem tanques langues,
Nem bombas nem jardineiros oficiais,
Só o mato crescendo indiferente entre sempre-vivas desbotadas
E o olhar desditoso da moça desfolhando malmequeres.)

Jardim da praça da liberdade,
Versailles entre bondes,
Na moldura das secretarias compenetradas

A graça inteligente da relva
Compõe o sonho dos verdes.
Proibido pisar no gramado
Talvez fosse melhor dizer:

Proibido comer o gramado

A prefeitura vigilante
Vela a soneca das ervinhas.

E o capote preto do guarda é uma bandeira na noite estrelada de funcionários.
De repente uma banda preta
Vermelha retinta suando
Bate um dobrado batuta
Na doçura
Do jardim,

Repuxos espavoridos fugindo.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Familia



Três meninos e duas meninas,
Sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta , a copeira mulata,
O papagaio, o gato, o cachorro,
As galinhas gordas no palmo de horta
E a mulher que trata de tudo,

A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
O cigarro, o trabalho, a reza,
A goiaba na sobremesa de domingo,
O palito nos dentes contentes,
O gramofone rouco toda a noite
E a mulher que trata de tudo.

O agiota, o leiteiro, o turco
O médico uma vez por mês
O bilhete todas as semanas
Branco! Mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo

E a felicidade.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Lanterna Mágica:




Meus olhos têm melancolias,
Minha boca tem rugas,
Velha cidade!

As árvores tão repetidas,
Debaixo de cada árvore faço minha cama,

Em cada ramo dependuro  meu paletó,
Lirismo.

Pelos jardins versailles
Ingenuidade de velocípedes,
E o velho fraque

na casinha de alpendre com duas janelas dolorosas.

domingo, 12 de junho de 2016

Para Sempre


Por que Deus permite que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga, quando sopra o vento e chuva desaba,
veludo escondido na pele enrugada,
água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça, é eternidade.
Por que Deus se lembra — mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre junto de seu filho
e ele, velho embora, será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas' 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

FUGA (Carlos Drummond de Andrade)


As atitudes inefáveis
Os inexprimíveis delíquios,
Êxtases, espasmos, beatitudes
Não são possíveis no Brasil.

O poeta vai enchendo a mala,
Põe camisas, punhos, loções,
Um exemplo da imitação
A parte para outros rumos.

A vaia amarela dos papagaios
Rompe o silencio da despedida.
 - Se eu tivesse cinco mil pernas
(diz ele) fugia com todas elas.

Povo feio, moreno, bruto,
Não respeita meu fraque preto.
Na Europa reina a geometria
E todo mundo anda – como eu – de luto.

Estou de luto por Anatole
France, o de Thais, joia soberba.
Não há cocaína, não há morfina
Igual a essa divina
Papa-fina.

Vou perder-me nas mil orgias
Do pensamento Greco-latino
Museus! Estatuas! Catedrais!
O Brasil só tem canibais.

Dito isto fechou-se em copas,
Joga-lhe um mico uma banana,
Por um tico não vai ao fundo.

Enquanto os bárbaros sem barbas
Sob o Cruzeiro do Sul
Se entregam perdidamente
Sem anatólios nem capitólios

Aos deboches americanos.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Cidadezinha Qualquer


Casas entre bananeiras

Mulher entre laranjeiras

Pomar amor cantar.

Um homem vai devagar,

Um cachorro vai devagar,

Um burro vai devagar.

Devagar... As janelas olham


Eta vida besta meu deus.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Sonhador


Sonhador



Procurei por ti
Envolto nas sombras do meu passado,

Procurei por ti
Em rostos na perdida madrugada.

Procurei por ti
No velame da barca ajaezada.

Procurei por ti
Em rostos na perdida madrugada.

Procurei por ti
No todo, em tudo e em nada


Procurei por ti.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Moça e Soldado



Meus olhos espiam a rua que passa.
Passam mulheres, passam soldados,
Moça  bonita foi feita para namorar.
Soldado barbudo foi feito para brigar.

Meus olhos espiam as pernas que passam,
Nem todas são grossas... Meus olhos espiam.
Passam soldados, mas todas são pernas, meus olhos espiam,

Tambores, clarins e pernas que passam,
Meus olhos espiam

Soldados que marcham, moças bonitas
Soldados barbudos
...para namorar, para brigar.

Só eu não brigo, só eu não namoro.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Infância



Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras
Lia a historia de Robinson Crusoé
Cumprida historia que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
A ninar nos longes da senzala- e nunca se esqueceu
Chamava para o café.
Café gostoso
Café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
Olhando para mim:
- psiu... não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

La longe meu pai campeava
No mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha historia

Era mais bonita que a de Robinson Crusoé