quinta-feira, 28 de julho de 2016

Explicação:



Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça!
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
Folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a deus como para aliviar o peito,
Queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos é que faço meu verso.
E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre...
Ele ás vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
Eu bem me entendo. Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa e das sombras das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
A dizem que ando na rua de olhos baixo para que ninguém desconfie
Ninguém perceba que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo a fita de Hoost Gibson, de repente ouço a voz de uma viola...
Saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
A beira do São Francisco, do Paraíba ou qualquer córrego vagabundo,
É sempre a mesma sem-si-bi-li-da-de,
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais é muito interessante.
Quem me faz assim foi minha gente e minha terra
E eu gosto bem de ter nascido com essa tara,
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa e uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
E tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O Francês, o italiano, o judeu falam uma linguá de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
Lê o seu jornal, mete a língua no governo, quixa-se da  vida (a vida está tão cara)
E no fim da certo.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.

Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta!

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Outubro de 1930


Outubro de 1930
Suores misturados no silencio noturno
O companheiro ronca.
O ruido igual dos tiros e o silencio na sala onde os corpos são coisas escuras.
O soldado deitado pensando na morte.
De 5 em 5 minutos um ciclista trazia ao Estado- Maior um feixe de telegramas contendo
Comprimida, a trepidação dos setores. O radiotelegrafista ora triste ora alegre empunhava um papel que era
A vitoria ou a derrota. Nós descansávamos,  jogados sobre poltronas, e abríamos para as noticias olhos que não viam, olhos que perguntavam, ás 3 da madrugada, pontualmente, começava o tiroteio.
O funcionário deitado não pensa na morte,
Pensa no amor tornado impossível no minuto guerreiro,
E fecha os olhos para ver bem
O amor com sua espada de fogo sobre a cabeça
De todos os homens, legalistas, rebeldes.
O inimigo resistia sempre e foi preciso cortar a água do quartel,
Como resistisse ainda, a água circulou de novo, desta vez azul, de metileno.
A torneira aberta escorre desinfetante, o canhão fabricado em Minas – suave temperamento local – não disparou.
Olha a negra, olha a negra, a negra fugindo com a trouxa de roupa,
Olha a negra no chão, e o cadáver com os seios enormes, expostos, inúteis.
O general com seus bigodes tumultuosos, era o mais doce dos seres,  e destilava  uma ternura vaporosa em seu hábito de usar culote sem perneiras. A um canto do salão atulhado de mapas e em que telefones esticados  Retiniam trazendo fatos, levando ordens, eu fazia, exercício fácil, a caricatura do seu imenso nariz. Que todos acharam ótima e reprovaram com indignação cívica.
A esta hora no Recife,
Em Guaxupé, Turvo, jaguara, Itararé,
Baixo Guandu, Igarapava, Chiador,
Homens estão se matando com as necessárias cautelas.
Pelo Brasil inteiro há tiros, granadas,
Literatura explosiva de boletins,
Mulheres carinhosas cosendo fardas
Com bolsos onde estudantes guardarão retratos
Das respectivas, longínquas namoradas,
Homens preparando discursos,
Outros, coleítes, captando rádios,
Minando pontes,
Outros (são governadores) dando o fora,
Pedidos de comissionamento
Por atos de bravura, ordens do dia,
“ o inimigo retirou-se em fuga precipitada,
Deixando abundante material bélico, Cinco mortos e vinte feridos...”
Um novo, claro Brasil surge, indeciso, da pólvora.
Meu deus, tomai conta de nós
Deus vela o sono dos Brasileiros.
Anjos alvíssimos espreitam a hora de apagar a luz de teu quarto
Para abrirem sobre ti as asas que afugentam os maus espíritos e purificam os sonhos.
Deus vela o sono e o sonho dos brasileiros.

Mais eles acordam e brigam de novo.

sábado, 23 de julho de 2016

Iniciação Amorosa



A rede entre duas mangueiras
Balançava no mundo profundo.

O dia era quente, sem vento
O sol lá em cima,
As folhas no meio
O dia era quente

E como eu não tinha nada que fazer vivia namorando
(as pernas morena da lavadeira)
Um dia ela veio para a rede
Se enroscou nos meus braços,
Me deu um abraço
Me deu as maminhas
Que eram só minhas
A rede virou,
O mundo afundou.

Depois fui para cama
Febre 40 graus febre.

Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas, girava no espaço verde.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Elegia do rei de Sião



Pobre rei de Sião que morreu de desgosto
Por não ter um filho varão.
Pobre rei de bankok educado em Oxford,
Pequenino, bonito, decorativo
Que morreu especialmente para nos comover,
Filho que desejava, a Ásia não deu
E seu desejo de um filho era maior do que a Ásia.
Pobre rei de Sião, que camões não cantou.
Amou três mulheres em vez de dez mil
E nenhuma lhe deu um filho varão.
De sua costela real nasceu uma pequenina siamesa.
Ao vê-la, o rei caiu para trás como um europeu,
Adoeceu, bebeu um veneno terrível e morreu.
Seu coração enegreceu de repente,
O corpo ficou todo fofo.
Depois queimaram o corpo fofo e o coração preto numa fogueira esplêndida
E a alma do rei de Sião fugiu entre os canais.

Pobre reizinho de Sião.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Cabaré mineiro:




A dançarina espanhola de Montes Claros
  Dança e redança na sala mestiça.
    Cem olhos morenos estão despidos
      Seu corpo gordo picado de mosquito,
        Tem um sinal de bala na coxa direita,
          O riso postiço de um dente de ouro,
            Mas é linda, gorda e satisfeita,
              Como rebola as nádegas amarelas!
                Cem olhos brasileiros estão seguindo

                  O balanço doce e mole de suas tetas...

terça-feira, 19 de julho de 2016

Sociedade



O homem disse para o amigo:
 -breve irei a tua casa,
E levarei minha mulher!

O amigo enfeitou a casa

E quando o homem chegou com a mulher,
Soltou uma duzia de foguetes.

O homem comeu e bebeu,
A mulher bebeu e cantou,
Os dois dançaram,

O amigo estava muito satisfeito,
Quando foi a hora de sair,
O amigo disse para o homem;
 - Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.

No caminho o homem resmungou:
 - Ora essa, era o que faltava,
E a mulher ajunta; - que idiota,

 - a casa é um ninho de pulgas,
 - reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.

E todas as quintas-feiras
Eles voltam a casa do amigo

Que ainda não pode retribuir a visita.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Quero me Casar



Quero me casar:
  Quero me casar
    Na noite na rua
      No mar ou no céu
        Quero me casar.

            Procuro uma noiva
              Loura ou morena
                Preta ou azul
                  Uma noiva verde
                    Uma noiva no ar
                      Como um passarinho,

                          Depressa que o amor

                            Não pode esperar!

sábado, 16 de julho de 2016

Balada do amor atraves das idades



Eu te gosto, você me gosta
Desde tempos imemoriais
Eu era grego, você troiana,
Troiana mas não Helena.
Sai do cavalo de pau
Para matar seu irmão,
Matei, brigamos, morremos.

Virei soldado romano,
Perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
Encontrei-te novamente
Mas quando vi você nua
Caida na areia do circo
E o leão que vinha rugindo
Dei um pulo desesperado
E o leão comeu nos dois.

Depois fui pirata mouro,
Flagelo da tripolitânia  
Toquei fogo na fragata
Onde você se escondia
Da furia de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
E te fazer minha escrava
Você fez o sinal da cruz
E rasgou o peito a punal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
Fui cortesão de versailles,
Espirituoso e devasso
Você cismou de ser freira...
Pulei muro do convento
Mas complicações politicas
Nos levaram a guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
Remo, pulo, danço, boxo
Tenho dinheiro no banco
Você é uma loura notável
Boxa, dança, pula, rema,
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripércias
Eu, heroi da paramount,

Te abraço, beijo e casamos