sexta-feira, 10 de junho de 2016

FUGA (Carlos Drummond de Andrade)


As atitudes inefáveis
Os inexprimíveis delíquios,
Êxtases, espasmos, beatitudes
Não são possíveis no Brasil.

O poeta vai enchendo a mala,
Põe camisas, punhos, loções,
Um exemplo da imitação
A parte para outros rumos.

A vaia amarela dos papagaios
Rompe o silencio da despedida.
 - Se eu tivesse cinco mil pernas
(diz ele) fugia com todas elas.

Povo feio, moreno, bruto,
Não respeita meu fraque preto.
Na Europa reina a geometria
E todo mundo anda – como eu – de luto.

Estou de luto por Anatole
France, o de Thais, joia soberba.
Não há cocaína, não há morfina
Igual a essa divina
Papa-fina.

Vou perder-me nas mil orgias
Do pensamento Greco-latino
Museus! Estatuas! Catedrais!
O Brasil só tem canibais.

Dito isto fechou-se em copas,
Joga-lhe um mico uma banana,
Por um tico não vai ao fundo.

Enquanto os bárbaros sem barbas
Sob o Cruzeiro do Sul
Se entregam perdidamente
Sem anatólios nem capitólios

Aos deboches americanos.

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