Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos, cheia de
pedras,
Sobem a ladeira que leva a deus
E vão deixando culpas no caminho
Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados,
Já estamos puros, sino, obrigados,
Mas trazemos flores, prendas e rezas.
No alto do morro chega a procissão um leproso que empunha o
estandarte,
As coxas das romeiras brincam no vento
Os homens cantam, cantam sem parar.
Jesus no ninho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra. Nos olhos do santo há
sangue que escorre,
Ninguém não percebe, o dia é de festa.
No adro da igreja há pinga, café, imagens, fenômenos,
baralhos, cigarros
E um sol imenso que lambuza de ouro, o pó das feridas e o pó
das mulatas.
Meu bom jesus que tudo podeis, humildemente te peço uma
graça.
Sarai-me, senhor, e não desta lepra, do amor que eu tenho e
que ninguém me tem.
Senhor, meu amo, daí-me dinheiro, muito dinheiro para eu
comprar,
Aquilo que é caro mais é gostoso e na minha terra ninguém
possui.
Jesus meu Deus pregado na cruz, me dá coragem para eu matar
Um que me amola de dia e de noite e diz gracinhas a minha
mulher.
Jesus, jesus piedade de mim. Ladrão eu sou mas não sou ruim
não.
Porque me perseguem não posso dizer. Não quero ser preso,
Jesus ó meu santo.
Os romeiros pedem com os olhos, pedem com a boca, pedem com
as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido, dorme sonhando com outra
humanidade.
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