Outubro de 1930
Suores misturados no silencio noturno
O companheiro ronca.
O ruido igual dos tiros e o silencio na sala onde os corpos
são coisas escuras.
O soldado deitado pensando na morte.
De 5 em 5 minutos um ciclista trazia ao Estado- Maior um
feixe de telegramas contendo
Comprimida, a trepidação dos setores. O radiotelegrafista
ora triste ora alegre empunhava um papel que era
A vitoria ou a derrota. Nós descansávamos, jogados sobre poltronas, e abríamos para as
noticias olhos que não viam, olhos que perguntavam, ás 3 da madrugada,
pontualmente, começava o tiroteio.
O funcionário deitado não pensa na morte,
Pensa no amor tornado impossível no minuto guerreiro,
E fecha os olhos para ver bem
O amor com sua espada de fogo sobre a cabeça
De todos os homens, legalistas, rebeldes.
O inimigo resistia sempre e foi preciso cortar a água do
quartel,
Como resistisse ainda, a água circulou de novo, desta vez
azul, de metileno.
A torneira aberta escorre desinfetante, o canhão fabricado
em Minas – suave temperamento local – não disparou.
Olha a negra, olha a negra, a negra fugindo com a trouxa de
roupa,
Olha a negra no chão, e o cadáver com os seios enormes,
expostos, inúteis.
O general com seus bigodes tumultuosos, era o mais doce dos
seres, e destilava uma ternura vaporosa em seu hábito de usar
culote sem perneiras. A um canto do salão atulhado de mapas e em que telefones
esticados Retiniam trazendo fatos,
levando ordens, eu fazia, exercício fácil, a caricatura do seu imenso nariz.
Que todos acharam ótima e reprovaram com indignação cívica.
A esta hora no Recife,
Em Guaxupé, Turvo, jaguara, Itararé,
Baixo Guandu, Igarapava, Chiador,
Homens estão se matando com as necessárias cautelas.
Pelo Brasil inteiro há tiros, granadas,
Literatura explosiva de boletins,
Mulheres carinhosas cosendo fardas
Com bolsos onde estudantes guardarão retratos
Das respectivas, longínquas namoradas,
Homens preparando discursos,
Outros, coleítes, captando rádios,
Minando pontes,
Outros (são governadores) dando o fora,
Pedidos de comissionamento
Por atos de bravura, ordens do dia,
“ o inimigo retirou-se em fuga precipitada,
Deixando abundante material bélico, Cinco mortos e vinte
feridos...”
Um novo, claro Brasil surge, indeciso, da pólvora.
Meu deus, tomai conta de nós
Deus vela o sono dos Brasileiros.
Anjos alvíssimos espreitam a hora de apagar a luz de teu
quarto
Para abrirem sobre ti as asas que afugentam os maus
espíritos e purificam os sonhos.
Deus vela o sono e o sonho dos brasileiros.
Mais eles acordam e brigam de novo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário