segunda-feira, 25 de julho de 2016

Outubro de 1930


Outubro de 1930
Suores misturados no silencio noturno
O companheiro ronca.
O ruido igual dos tiros e o silencio na sala onde os corpos são coisas escuras.
O soldado deitado pensando na morte.
De 5 em 5 minutos um ciclista trazia ao Estado- Maior um feixe de telegramas contendo
Comprimida, a trepidação dos setores. O radiotelegrafista ora triste ora alegre empunhava um papel que era
A vitoria ou a derrota. Nós descansávamos,  jogados sobre poltronas, e abríamos para as noticias olhos que não viam, olhos que perguntavam, ás 3 da madrugada, pontualmente, começava o tiroteio.
O funcionário deitado não pensa na morte,
Pensa no amor tornado impossível no minuto guerreiro,
E fecha os olhos para ver bem
O amor com sua espada de fogo sobre a cabeça
De todos os homens, legalistas, rebeldes.
O inimigo resistia sempre e foi preciso cortar a água do quartel,
Como resistisse ainda, a água circulou de novo, desta vez azul, de metileno.
A torneira aberta escorre desinfetante, o canhão fabricado em Minas – suave temperamento local – não disparou.
Olha a negra, olha a negra, a negra fugindo com a trouxa de roupa,
Olha a negra no chão, e o cadáver com os seios enormes, expostos, inúteis.
O general com seus bigodes tumultuosos, era o mais doce dos seres,  e destilava  uma ternura vaporosa em seu hábito de usar culote sem perneiras. A um canto do salão atulhado de mapas e em que telefones esticados  Retiniam trazendo fatos, levando ordens, eu fazia, exercício fácil, a caricatura do seu imenso nariz. Que todos acharam ótima e reprovaram com indignação cívica.
A esta hora no Recife,
Em Guaxupé, Turvo, jaguara, Itararé,
Baixo Guandu, Igarapava, Chiador,
Homens estão se matando com as necessárias cautelas.
Pelo Brasil inteiro há tiros, granadas,
Literatura explosiva de boletins,
Mulheres carinhosas cosendo fardas
Com bolsos onde estudantes guardarão retratos
Das respectivas, longínquas namoradas,
Homens preparando discursos,
Outros, coleítes, captando rádios,
Minando pontes,
Outros (são governadores) dando o fora,
Pedidos de comissionamento
Por atos de bravura, ordens do dia,
“ o inimigo retirou-se em fuga precipitada,
Deixando abundante material bélico, Cinco mortos e vinte feridos...”
Um novo, claro Brasil surge, indeciso, da pólvora.
Meu deus, tomai conta de nós
Deus vela o sono dos Brasileiros.
Anjos alvíssimos espreitam a hora de apagar a luz de teu quarto
Para abrirem sobre ti as asas que afugentam os maus espíritos e purificam os sonhos.
Deus vela o sono e o sonho dos brasileiros.

Mais eles acordam e brigam de novo.

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