Segundo Bauman, nossa sociedade vive o fenômeno da “multidão
solitária” em que as pessoas convivem lado a lado mas dificilmente aprofundam
contatos, o que torna cada vez mais raro o relacionamento genuíno entre dois
indivíduos.
Desde as suas origens gregas, a tradição filosófica jamais
deixou de problematizar a questão do amor; tema de suma importância em nossa
historia intelectual. No Banquete de Platão, a experiência do amor se constitui
como um processo de elevação do
particular ao universal; do apego ao sensível ao processo de emancipação rumo
ao plano abstrato-inteligível, em uma longa gradação mediada pela contemplação do belo, inicialmente o amante é
atraído pela beleza física do ser amado. No segundo passo, a consciência do
amante se amplia e este passa a buscar o mesmo principio de beleza em todos os
seres humanos, buscando assim todas as formas belas; “Eros impele o desejo de
um belo corpo a outro e, finalmente, para todos os belos corpos. pois a beleza
existente num determinado corpo é irmã da beleza que existe em outros, Seria
grande demonstração de insensatez não considerar como uma única e mesma coisa a
beleza que se encontra em todos os corpos”.
O terceiro passo consiste no amor pela beleza da alma,
independente da forma física à qual ela esta associada. O quarto passo consiste
no amor pelas praticas belas, de modo que a alma ama os ofícios e as leis, essencialmente.
Tal nível de amor conduz ao degrau número cinco, referente ao amor pelas
instituições belas, regidas pela justiça. Trata-se do amor pelo governo, pela
cultura e por todas as instituições promotoras da harmonia. Nesse quesito, o
bem comum é o interesse primordial. Desse ponto, a alma ascende para o sexto
degrau da escada do amor, em direção ao universal e ao abstrato do plano da
episteme, ou seja: conhecimento puro e compreensão das essências; nessa etapa a
alma é associada ao amor por meio do saber, caracterizando assim a própria
atividade filosófica. No sétimo degrau encontramos a própria ideia de amor,
pois a alma ama o belo em si mesmo. Nessa categoria podemos estabelecer uma
interpretação de cunho religioso, defendendo a hipótese de que se trata do amor
divino, caracterizando-se como uma vivencia extática.
A vivencia do amor genuíno se enraíza através da afirmação
da alteridade, capacidade de se compreender a interioridade do outro; o amor é,
assim, uma experiência que preconiza a intersubjetividade, comunicando-se então
os afetos de pessoa para pessoa. Para Erich Fromm (1900-1980) “se eu amo o
outro, sinto-me um só com ele, mas com ele como ele é, e não na medida em que
preciso dele como objeto para meu uso”. Contudo, no avanço da era moderna
ocorre a fragmentação da experiência afetiva, mediada pelos signos do capita.
Karl Marx (1818-1883) já anunciara as bases alienantes desse processo pelo
conceito de “fetichismo da mercadoria”. Projetamos nos objetos qualidades fantasmagóricas
e estas interferem imediatamente nas relações sociais, interpondo-se entre os
indivíduos. Os objetos adquirem como que vida própria e se tornam mais
importante do que a singularidade humana, plenamente subjugada pelo mecanismo
social do dinheiro. As relações humanas, intermediadas por mercadorias, perdem
sua substancialidade e se igualam ao nível das coisas. Conforme argumenta a
socióloga Eva Illouz (1961), “na cultura do capitalismo afetivo, os afetos se
tornaram entidades a serem analisadas, inspecionadas, discutidas, negociadas,
quantificadas e mercantilizadas”. As pessoas se tornaram coisas que podem ser
adquiridas, consumidas e descartadas ao gosto do usuário, trocando-o por outro
que aparentemente se demonstre como mais “interessante” no momento. Nessa
dinâmica existencial, ninguém e considerado insubstituível e toda ideia de
singularidade se torna um argumento vazio. Nesse processo de dissolução da
dignidade humana, “a pessoa não se preocupa com sua vida e felicidade, mas em
tornar-se vendável”. As relações amorosas se tornaram apenas um meio de
obtenção imediata de prazer sexual, e de modo algum uma genuína interação
interpessoal, pautada pelo respeito e pela afirmação do valor humano do outro.
Esse processo de despersonalização do individuo, imerso no oceano da indiferença
existencial, é a característica por excelência da ideia de “vida liquida”
problematizada por Bauman; uma vida precária, em condições de incerteza
constante: “A vida na sociedade liquido - moderna é uma versão perniciosa da
dança das cadeiras, jogada para valer. O verdadeiro prêmio nessa competição é a
garantia (temporária) de ser excluído das fileiras dos destruídos e evitar ser
jogado no lixo”.
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