sexta-feira, 10 de julho de 2015

O desafio de amar (1ª parte) Matéria da revista Filosofia


Segundo Bauman, nossa sociedade vive o fenômeno da “multidão solitária” em que as pessoas convivem lado a lado mas dificilmente aprofundam contatos, o que torna cada vez mais raro o relacionamento genuíno entre dois indivíduos.
Desde as suas origens gregas, a tradição filosófica jamais deixou de problematizar a questão do amor; tema de suma importância em nossa historia intelectual. No Banquete de Platão, a experiência do amor se constitui como um  processo de elevação do particular ao universal; do apego ao sensível ao processo de emancipação rumo ao plano abstrato-inteligível, em uma longa gradação mediada pela  contemplação do belo, inicialmente o amante é atraído pela beleza física do ser amado. No segundo passo, a consciência do amante se amplia e este passa a buscar o mesmo principio de beleza em todos os seres humanos, buscando assim todas as formas belas; “Eros impele o desejo de um belo corpo a outro e, finalmente, para todos os belos corpos. pois a beleza existente num determinado corpo é irmã da beleza que existe em outros, Seria grande demonstração de insensatez não considerar como uma única e mesma coisa a beleza que se encontra em todos os corpos”.
O terceiro passo consiste no amor pela beleza da alma, independente da forma física à qual ela esta associada. O quarto passo consiste no amor pelas praticas belas, de modo que a alma ama os ofícios e as leis, essencialmente. Tal nível de amor conduz ao degrau número cinco, referente ao amor pelas instituições belas, regidas pela justiça. Trata-se do amor pelo governo, pela cultura e por todas as instituições promotoras da harmonia. Nesse quesito, o bem comum é o interesse primordial. Desse ponto, a alma ascende para o sexto degrau da escada do amor, em direção ao universal e ao abstrato do plano da episteme, ou seja: conhecimento puro e compreensão das essências; nessa etapa a alma é associada ao amor por meio do saber, caracterizando assim a própria atividade filosófica. No sétimo degrau encontramos a própria ideia de amor, pois a alma ama o belo em si mesmo. Nessa categoria podemos estabelecer uma interpretação de cunho religioso, defendendo a hipótese de que se trata do amor divino, caracterizando-se como uma vivencia extática.

A vivencia do amor genuíno se enraíza através da afirmação da alteridade, capacidade de se compreender a interioridade do outro; o amor é, assim, uma experiência que preconiza a intersubjetividade, comunicando-se então os afetos de pessoa para pessoa. Para Erich Fromm (1900-1980) “se eu amo o outro, sinto-me um só com ele, mas com ele como ele é, e não na medida em que preciso dele como objeto para meu uso”. Contudo, no avanço da era moderna ocorre a fragmentação da experiência afetiva, mediada pelos signos do capita. Karl Marx (1818-1883) já anunciara as bases alienantes desse processo pelo conceito de “fetichismo da mercadoria”. Projetamos nos objetos qualidades fantasmagóricas e estas interferem imediatamente nas relações sociais, interpondo-se entre os indivíduos. Os objetos adquirem como que vida própria e se tornam mais importante do que a singularidade humana, plenamente subjugada pelo mecanismo social do dinheiro. As relações humanas, intermediadas por mercadorias, perdem sua substancialidade e se igualam ao nível das coisas. Conforme argumenta a socióloga Eva Illouz (1961), “na cultura do capitalismo afetivo, os afetos se tornaram entidades a serem analisadas, inspecionadas, discutidas, negociadas, quantificadas e mercantilizadas”. As pessoas se tornaram coisas que podem ser adquiridas, consumidas e descartadas ao gosto do usuário, trocando-o por outro que aparentemente se demonstre como mais “interessante” no momento. Nessa dinâmica existencial, ninguém e considerado insubstituível e toda ideia de singularidade se torna um argumento vazio. Nesse processo de dissolução da dignidade humana, “a pessoa não se preocupa com sua vida e felicidade, mas em tornar-se vendável”. As relações amorosas se tornaram apenas um meio de obtenção imediata de prazer sexual, e de modo algum uma genuína interação interpessoal, pautada pelo respeito e pela afirmação do valor humano do outro. Esse processo de despersonalização do individuo, imerso no oceano da indiferença existencial, é a característica por excelência da ideia de “vida liquida” problematizada por Bauman; uma vida precária, em condições de incerteza constante: “A vida na sociedade liquido - moderna é uma versão perniciosa da dança das cadeiras, jogada para valer. O verdadeiro prêmio nessa competição é a garantia (temporária) de ser excluído das fileiras dos destruídos e evitar ser jogado no lixo”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário