domingo, 12 de julho de 2015

O desafio de amar 3ª parte (matéria da revista Filosofia)


Ser livre pressupõe uma responsabilidade difícil de suportar perante a opressão de nossa líquida vida social, cada vez mais diluída na ausência de uma autêntica compreensão e valorização da ­ figura do “outro”, que é sempre imputado como o estranho, jamais um potencial indivíduo capaz de interação. As parcerias não se fortalecem e os medos não se dissipam. A grande ameaça, no contexto amoroso, decorre da incapacidade de compreendermos o valor afetivo de nossos interlocutores. Conforme diz Zygmunt Bauman (1925) acerca dessa dinâmica afetiva, “é preciso diluir as relações para que possamos consumi-las”.
Não nos permitimos vivenciar o amor pleno, por medo de sermos usados no máximo das nossas capacidades e posteriormente descartados. Afinal, não queremos ser violentados afetivamente pelo desgosto da desilusão sentimental. Segundo Anthony Giddens (1938), “para que um relacionamento tenha a probabilidade de durar, é necessário o compromisso; mas qualquer um que se comprometa sem reservas arrisca-se a sofrer muito no futuro, no caso de o relacionamento vir a se dissolver”.
Preferimos então abrir mão das relações amorosas concretas para adentrarmos na dimensão das relações virtuais que, em si, são reais, mas desprovidas do “olho no olho” que caracteriza as experiências éticas mais profundas, regidas pela capacidade de se lidar adequadamente com a presença do outro diante de nós. Evitamos assim a intimidade indesejável da presença do parceiro quando este se torna enfadonho ao nosso gosto. O desgaste decorrente da relação interpessoal é suprimido com um clique no botão do computador.
O FILME Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, dirigido por Michel Gondry, retrata a fragilidade dos relacionamentos. Com o gradativo aumento da intimidade, um deseja se livrar do outro, no eterno imbróglio de se dar bem, até perceberem que o par possível só pode ser o ser humano em sua oscilante acepção
O interlocutor se torna uma mera imagem sensual a ser consumida e ejetada sem maiores delongas do círculo de contatos e do próprio âmbito da percepção pessoal. Pessoas retraídas se tornam poderosamente sedutoras através da mediação eletrônica, conseguindo extravasar as disposições sensuais que permaneceriam recalcadas em circunstâncias concretas. A assepsia das relações virtuais e a descartabilidade do que Bauman denomina como “relacionamentos de bolso” são a tônica do “amor líquido”, pois podemos dispor deles quando necessário e depois tornar a guardá-los. Os ditos “relacionamentos virtuais” são assépticos e descartáveis, e não exigem o compromisso efetivo de nenhuma das partes pretensamente envolvidas nessa interação eletrônica. Tal como apontado por Eva Illouz (1961), “a internet di­ficulta muito mais um dos componentes centrais da sociabilidade, qual seja, a nossa capacidade de negociar com nós mesmos, continua mente, os termos em que nos dispomos a estabelecer relações com os outros [...] A internet proporciona um tipo de conhecimento que, por estar desinserido e desvinculado de um conhecimento contextual e prático da outra pessoa, não pode ser usado para compreendê-la como um todo”.
Ao adentrar o universo das relações virtuais, buscamos evitar a intimidade indesejável da presença do parceiro quando este se torna enfadonho ao nosso gosto
As facilidades comunicacionais das nossas convergências midiáticas, em vez de favorecem o aumento de participação na esfera pública, geram um curioso efeito reverso de acomodamento social dos indivíduos, cada vez mais embotados pelo amálgama de informações que são reproduzidas diariamente pela estrutura midiática. As redes sociais, que, utilizadas de maneira crítica e consciente, promovem mecanismos de politização e interatividade interpessoal, na dinâmica do “amor líquido” se tornam apenas utensílios quantitativos para a ampliação do número de amigos. Temos milhares de amigos nas redes sociais, mas nem sequer cumprimentamos muitos deles ao defrontá-los no cotidiano; temos amigos em diversas partes do planeta, mas somos incapazes de olhar de maneira humana para o nosso vizinho, muito menos para o homem da rua que perpetua cotidianamente sua penúria.
O medo do vazio da vida e a incapacidade do homem em lidar com o sentimento de perda e de desapego são algumas das motivações existenciais para a configuração do “amor líquido”, atrelado ao dispositivo que impõe a cada pessoa, submetida ao padrão totalitário de consumo, a necessidade de gozar a todo custo, ainda que em detrimento da humanidade do outro. Para Enrique Rojas (1949), “é preciso construir uma nova pedagogia do amor, partindo de nós próprios e não do prazer sexual colocado à frente do amor. É justamente essa tergiversação de palavras que nos levou a um consumo de sexo que se afasta do sentido profundo do encontro amoroso. O parceiro nas relações sexuais não tem importância como pessoa, só existe como corpo”17.

A degradação da condição humana na experiência amorosa da sociedade tecnocrática provém da manifestação do medo social diante da incerteza em relação ao futuro cada vez mais problemático, assim como expressão da incapacidade humana de aceitar desafios, arriscar o desconhecido, vivenciar a intensidade do amor; o amor somente se realiza satisfatoriamente quando as partes envolvidas na relação visam no ser do parceiro um salutar complemento existencial, e não um suporte para o preenchimento do vazio interior produzido pela participação em uma realidade degradante. Para Bauman, “a incerteza é o habitat natural da vida humana – ainda que a esperança de escapar da incerteza seja o motor das atividades humanas. Escapar da incerteza é um ingrediente fundamental, mesmo que apenas tacitamente presumido, de todas e quaisquer imagens compósitas da felicidade. É por isso que a felicidade “genuína” adequada e total sempre parece residir em algum lugar à frente: tal como o horizonte, que recua quando se tenta chegar mais perto dele”.

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