sábado, 11 de julho de 2015

O desafio de Amar 2ª Parte

O “AMOR platônico” é associado pelo senso comum a uma experiência que não se concretiza; nada mais equivocado, pois a processão da alma rumo ao Belo é uma trajetória que se realiza a rigor, permitindo ao “amante” atingir a plenitude do Ser
Em tempos de capitalismo flexível, é inviável a manutenção na crença em relações afetivas duradouras. Em uma perspectiva ética orientada pelos princípios da alteridade, não se pressupõe que todas as relações interpessoais sejam duradouras do ponto de vista extensivo, mas sim que sejam intensas e afirmadoras das qualidades de ambas as pessoas envolvidas nesse processo. É inconveniente aos preceitos mercantis e seus inerentes mandamentos produtivistas que o indivíduo sofra continuamente pelas dores de amor, pois isso gera riscos de diminuição da capacidade de dedicação humana ao labor cotidiano. Todavia, ao menos nesse ponto, o comercialismo capitalista conseguiu burlar esse transtorno ao criar uma miríade de medicamentos que atenuam o mal-estar existencial decorrente da ausência do ser amado ao nosso lado.
O consumo está tão enraizado em nossa sociedade que as pessoas estão se consumindo como se fossem mercadorias. A “coisificação” do ser humano e o anseio pela novidade é o motor propulsor da sociedade de consumo e das relações interpessoais
As histórias clássicas de amor demonstram sua superficialidade ao transmitir a ideia do “viveram felizes para sempre”, como se a efetivação matrimonial da relação amorosa culminasse na supressão de todas as adversidades existenciais; talvez seja justamente a partir desse momento que todos os percalços surjam, pois a convivência cotidiana com o outro é a prova maior de sua suportabilidade e condição indispensável para que possamos desenvolver uma genuína experiência ética. Ao abordar essa questão, o psiquiatra espanhol Enrique Rojas (1949) afirma que: “O amor humano é um sentimento de aprovação e afirmação do outro, e por isso nossa vida tem um novo sentido de busca e desejo de estar ao lado da outra pessoa”.
O AMOR AUTÊNTICO NÃO PODE SE FUNDAMENTAR APENAS EM UM CONTRATO, MAS SIM EM UMA PODEROSA CELEBRAÇÃO REGIDA PELA ESPONTANEIDADE E PELA ALEGRIA
O amor autêntico por uma pessoa não pode se fundamentar apenas em um contrato moral-jurídico-religioso, mas sim em uma poderosa celebração regida pela espontaneidade e pela alegria. O respeito verdadeiro pelo ser amado não brota pelo cumprimento de um formalismo contratual, mas sim pelo cuidado para com ele, nascido do sentimento de alteridade; tal como pertinentemente abordado por Edgar Morin (1921): “A autenticidade do amor não consiste em projetar nossa verdade sobre o outro e, ­ finalmente, ver o outro exclusivamente segundo nossos olhos, mas sim de nos deixar contaminar pela verdade do outro”. Porém, essa experiência é incompatível com o regime de descartabilidade capitalista, no qual todas as coisas devem ser de pouca durabilidade, de modo que a roda do consumo jamais se paralise.
O processo de despersonalização do indivíduo, imerso no oceano da indiferença existencial, é a característica por excelência da ideia de “vida líquida” problematizada por Bauman
Obviamente que todo ser humano possui pleno direito de experimentar exaustivamente relações afetivas em busca da autorrealização amorosa, mas o elemento criticável na conjuntura capitalista inserida na sociabilidade decorre da irresponsabilidade ética para com a ­ figura do outro, imputada como desprovida de interioridade, sentimentos e valores. Queremos gozar a vida plenamente mesmo que através da degradação do outro e sem que corramos os riscos provenientes das incertezas decorrentes de toda relação interpessoal. Slavoj Zizek (1949) argumenta criticamente que “hoje tudo é permitido ao ‘último homem’ hedonista: tirar proveito de todos os prazeres, mas na condição de eles estarem privados da sua substância, que os torna perigosos”.
Imerso nesse processo rotativo de inclusão e exclusão instantâneas nas suas relações afetivas, o indivíduo teme afirmar a potência unificadora do amor que, em sua própria vivência, é inefável. Quando amamos, amamos a pessoa pelo que ela é ou pelo que ela representa socialmente e materialmente para nós? Podemos afirmar que a “moralidade líquida” optou pela segunda possibilidade, fazendo sempre da ­ - figura do outro um estranho que só adquire importância quando se presta a satisfazer os nossos objetivos egoístas. Conforme argumenta o ensaísta mexicano Octavio Paz (1914-1998): “O amor é uma tentativa de penetrar em outro ser, mas só pode ser realizado sob a condição de que a entrega seja mútua. Em todos os lugares é difícil esse abandono de si mesmo; poucos coincidem na entrega e menos ainda conseguem transcender essa etapa possessiva e gozar o amor como o que realmente é: um descobrimento perpétuo, uma imersão nas águas da realidade e uma recriação constante”.

No contexto da vivência líquida, amar se caracteriza sempre como um ato arriscado, perigoso, pois não conhecemos de antemão o resultado ­ final das nossas experiências afetivas: só é possível nos preocuparmos com as conseqüências que podemos prever, e somente delas podemos lutar para escapar. O “outro” é considerado apenas uma peça, que rapidamente entra em processo de obsolescência em nossa frívola experiência afetiva, para que logo após se possa descartá-lo tal como o bagaço da laranja atirado ao lixo; sem que haja qualquer crise de consciência da parte do indivíduo consumista de afetos e experiências em cometer tal ato para com o parceiro amoroso. Tal como destaca Pierre Lévy (1956) em sua valiosíssima incursão na Ética do amor: “Quem não se ama usa os outros para preencher as próprias deficiências. Busca um ego complementar ao seu”.

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