O “AMOR platônico” é associado
pelo senso comum a uma experiência que não se concretiza; nada mais equivocado,
pois a processão da alma rumo ao Belo é uma trajetória que se realiza a rigor,
permitindo ao “amante” atingir a plenitude do Ser
Em tempos
de capitalismo flexível, é inviável a manutenção na crença em relações afetivas
duradouras. Em uma perspectiva ética orientada pelos princípios da alteridade,
não se pressupõe que todas as relações interpessoais sejam duradouras do ponto
de vista extensivo, mas sim que sejam intensas e afirmadoras das qualidades de
ambas as pessoas envolvidas nesse processo. É inconveniente aos preceitos
mercantis e seus inerentes mandamentos produtivistas que o indivíduo sofra
continuamente pelas dores de amor, pois isso gera riscos de diminuição da
capacidade de dedicação humana ao labor cotidiano. Todavia, ao menos nesse
ponto, o comercialismo capitalista conseguiu burlar esse transtorno ao criar
uma miríade de medicamentos que atenuam o mal-estar existencial decorrente da ausência
do ser amado ao nosso lado.
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O consumo está tão enraizado em nossa sociedade que as pessoas estão
se consumindo como se fossem mercadorias. A “coisificação” do ser humano e o
anseio pela novidade é o motor propulsor da sociedade de consumo e das relações
interpessoais
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As histórias
clássicas de amor demonstram sua superficialidade ao transmitir a ideia do
“viveram felizes para sempre”, como se a efetivação matrimonial da relação
amorosa culminasse na supressão de todas as adversidades existenciais; talvez
seja justamente a partir desse momento que todos os percalços surjam, pois a
convivência cotidiana com o outro é a prova maior de sua suportabilidade e
condição indispensável para que possamos desenvolver uma genuína experiência
ética. Ao abordar essa questão, o psiquiatra espanhol Enrique Rojas (1949) afirma que: “O amor humano é um sentimento de aprovação e afirmação do outro, e por
isso nossa vida tem um novo sentido de busca e desejo de estar ao lado da outra
pessoa”.
O AMOR AUTÊNTICO NÃO PODE SE FUNDAMENTAR APENAS EM UM CONTRATO,
MAS SIM EM UMA PODEROSA CELEBRAÇÃO REGIDA PELA ESPONTANEIDADE E PELA ALEGRIA
O amor
autêntico por uma pessoa não pode se fundamentar apenas em um contrato
moral-jurídico-religioso, mas sim em uma poderosa celebração regida pela
espontaneidade e pela alegria. O respeito verdadeiro pelo ser amado não brota
pelo cumprimento de um formalismo contratual, mas sim pelo cuidado para com
ele, nascido do sentimento de alteridade; tal como pertinentemente abordado por
Edgar Morin (1921): “A autenticidade do amor não consiste em projetar nossa
verdade sobre o outro e, finalmente, ver o outro exclusivamente segundo
nossos olhos, mas sim de nos deixar contaminar pela verdade do outro”. Porém,
essa experiência é incompatível com o regime de descartabilidade capitalista,
no qual todas as coisas devem ser de pouca durabilidade, de modo que a roda do
consumo jamais se paralise.
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O processo de despersonalização do indivíduo, imerso no oceano da
indiferença existencial, é a característica por excelência da ideia de “vida
líquida” problematizada por Bauman
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Obviamente que todo
ser humano possui pleno direito de experimentar exaustivamente relações
afetivas em busca da autorrealização amorosa, mas o elemento criticável na
conjuntura capitalista inserida na sociabilidade decorre da irresponsabilidade
ética para com a figura do outro, imputada como desprovida de interioridade,
sentimentos e valores. Queremos gozar a vida plenamente mesmo que através da
degradação do outro e sem que corramos os riscos provenientes das incertezas
decorrentes de toda relação interpessoal. Slavoj Zizek (1949) argumenta
criticamente que “hoje tudo é permitido ao ‘último homem’ hedonista: tirar
proveito de todos os prazeres, mas na condição de eles estarem privados da sua
substância, que os torna perigosos”.
Imerso nesse processo
rotativo de inclusão e exclusão instantâneas nas suas relações afetivas, o
indivíduo teme afirmar a potência unificadora do amor que, em sua própria
vivência, é inefável. Quando amamos, amamos a pessoa pelo que ela é ou pelo que
ela representa socialmente e materialmente para nós? Podemos afirmar que a
“moralidade líquida” optou pela segunda possibilidade, fazendo sempre da - figura
do outro um estranho que só adquire importância quando se presta a satisfazer
os nossos objetivos egoístas. Conforme argumenta o ensaísta mexicano Octavio
Paz (1914-1998): “O amor é uma tentativa de penetrar em outro ser, mas só pode
ser realizado sob a condição de que a entrega seja mútua. Em todos os lugares é
difícil esse abandono de si mesmo; poucos coincidem na entrega e menos ainda
conseguem transcender essa etapa possessiva e gozar o amor como o que realmente
é: um descobrimento perpétuo, uma imersão nas águas da realidade e uma
recriação constante”.
No contexto da
vivência líquida, amar se caracteriza sempre como um ato arriscado, perigoso,
pois não conhecemos de antemão o resultado final das nossas experiências
afetivas: só é possível nos preocuparmos com as conseqüências que podemos
prever, e somente delas podemos lutar para escapar. O “outro” é considerado
apenas uma peça, que rapidamente entra em processo de obsolescência em nossa
frívola experiência afetiva, para que logo após se possa descartá-lo tal como o
bagaço da laranja atirado ao lixo; sem que haja qualquer crise de consciência
da parte do indivíduo consumista de afetos e experiências em cometer tal ato
para com o parceiro amoroso. Tal como destaca Pierre Lévy (1956) em sua
valiosíssima incursão na Ética do amor: “Quem não se ama usa os outros para
preencher as próprias deficiências. Busca um ego complementar ao seu”.
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