segunda-feira, 13 de julho de 2015

O desafio de Amar (4ª e última parte)


O AMOR SE REALIZA QUANDO OS ENVOLVIDOS NA RELAÇÃO VISAM NO PARCEIRO UM COMPLEMENTO EXISTENCIAL, E NÃO UM SUPORTE PARA O PREENCHIMENTO DO VAZIO INTERIOR
O medo difuso na experiência cotidiana in­filtrou-se na esfera da sociabilidade e, por conseguinte, nas relações afetivas, tornando a vivência plena do amor um evento indesejável, enfadonho, arriscado, mesmo perigoso para quem se propõe a amar alguém, pois requer investimento de tempo, algo raro em uma era regida pela vertiginosa pressa em todos os estamentos da vida humana. Bauman argumenta que: “Os medos nos estimulam a assumir uma ação defensiva. Quando isso ocorre, a ação defensiva confere proximidade e tangibilidade ao medo. São nossas respostas que reclassi­ficam as premonições sombrias como realidade diária, dando corpo à palavra. O medo agora se estabeleceu, saturando nossas rotinas cotidianas; praticamente não precisa de outros estímulos exteriores, já que as ações que estimula, dia após dia, fornecem toda a motivação e toda a energia de que ele necessita para se reproduzir. Entre os mecanismos que buscam se aproximar do modelo de sonhos do moto-perpétuo, a autorreprodução do emaranhado do medo e das ações inspiradas por esse sentimento está perto de reclamar uma posição de destaque”.
Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Flávio Gikovate (1943), em vez de ser um fim em si mesmo, o amor deveria funcionar como um meio para o aprimoramento individual, nos curando das frustrações do passado e nos impulsionando para o futuro
Troca-se de parceiro como se troca de peça de vestuário. Tememos a proximidade do “outro”, pois este, na visão distorcida que dele fazemos, traz sempre consigo uma sombra ameaçadora, capaz de desestabilizar o frágil suporte de nossa organização familiar, de nossa atividade pro­fissional e de nossa sociedade como um todo. A busca por experiências “amorosas” fugazes não representa sinal de vitalidade sexual do indivíduo, mas um empobrecimento da sua capacidade de se relacionar profundamente com a subjetividade do outro. Para Bauman, “nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante”. O tipo egoísta é incapaz de amar o outro e tampouco é capaz de amar a si mesmo. O que essa ­ figura autocentrada supostamente venera em si mesmo é a máscara social que ela utiliza como instrumento de fuga de sua interioridade “dessubstancializada”, de sua própria pobreza existencial.
De tanto utilizar máscaras sociais como instrumento de fuga da própria interioridade, há o perigo de nos perdermos de nós mesmos
O caráter agravante de tal situação é que muitas vezes colocamos o “outro” em situações vexatórias ou em condições vitais degradantes, e ainda por cima esperamos dele respostas positivas. Tememos amar plenamente alguém por não querermos ser usados no máximo das nossas capacidades e sermos descartados posteriormente, quando a relação amorosa vier a demonstrar os seus primeiros sinais de turbulência: “desenvolvemos o crônico medo de sermos deixados para trás, de sermos excluídos”. Como o ritmo da vida líquida é marcado pela flutuação dos ânimos e as incertezas quanto ao futuro, o mais sensato é não se investir em nenhum tipo de risco afetivo, permanecendo-se assim na trincheira do amor. Richard Sennett (1943), por sua vez, argumenta que “nas relações íntimas, o medo de tornar-se dependente de outra pessoa é uma falta de con­fiança nela; em vez disso, prevalecem nossas defesas”.
Pensar a questão do amor em sua acepção ­ filosó­fica é um exercício intelectual no qual elementos éticos e ontológicos se manifestam continuamente nessa vastíssima e íngreme reflexão. Amar é certamente um ato ético, pois nos defronta perante a ­ figura do outro, e também uma experiência ontológica, uma vez que na vivência do amor penetramos na subjetividade do outro pelo qual nos afeiçoamos. Todavia, o sistema de vida alienante da cultura ocidental abalou as estruturas psicológicas dos indivíduos, promovendo assim a barbárie social e o afloramento da ansiedade perante tempos incertos. O “amor líquido”, rebento da crise ética da modernidade e de seu fracasso político, nada mais é que um sintoma da fragilidade das relações humanas na confusão dos valores submetidos aos signos tecnocráticos do capital. Certamente não existe uma panacéia para a transformação imediata dessa situação, mas medidas microscópicas podem ser desenvolvidas no decorrer da vida cotidiana, tendo-se em vista a revalorização da condição humana e sua inerente sociabilidade.

Liberdade sexual de “massa”

O ardor hedonista de satisfação imediata dos ímpetos sensuais tornou a figura do parceiro amoroso apenas um pedaço de carne capaz de proporcionar o prazer esperado. Dessa maneira, a liberação sexual não se originou de um processo político de afirmação da alteridade, mas de uma necessidade capitalista de exaustão de todo potencial humano. A psicanalista brasileira Maria Rita Kehl (1951) é categórica ao afirmar que “a aliança entre a expansão do capital e a liberação sexual fez do interesse das massas consumidoras pelo sexo um ingrediente eficiente de publicidade. Tudo o que se vende tem apelo sexual: um carro, um liquidificador, um comprimido contra dor de cabeça, um provedor de internet, um tempero industrializado. A imagem publicitária evoca o gozo que se consuma na própria imagem, ao mesmo tempo que promete fazer do consumidor um ser pleno e realizado. Tudo evoca o sexo ao mesmo tempo que afasta o sexual, na medida em que a mercadoria se oferece como presença segura, positivada no real, do objeto de desejo”
Maria Rita Kehl, Ética e Psicanálise

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