O AMOR SE REALIZA QUANDO
OS ENVOLVIDOS NA RELAÇÃO VISAM NO PARCEIRO UM COMPLEMENTO EXISTENCIAL, E NÃO UM
SUPORTE PARA O PREENCHIMENTO DO VAZIO INTERIOR
O medo difuso na experiência cotidiana infiltrou-se na esfera
da sociabilidade e, por conseguinte, nas relações afetivas, tornando a vivência
plena do amor um evento indesejável, enfadonho, arriscado, mesmo perigoso para
quem se propõe a amar alguém, pois requer investimento de tempo, algo raro em
uma era regida pela vertiginosa pressa em todos os estamentos da vida humana.
Bauman argumenta que: “Os medos nos estimulam a assumir uma ação defensiva.
Quando isso ocorre, a ação defensiva confere proximidade e tangibilidade ao
medo. São nossas respostas que reclassificam as premonições sombrias como
realidade diária, dando corpo à palavra. O medo agora se estabeleceu, saturando
nossas rotinas cotidianas; praticamente não precisa de outros estímulos
exteriores, já que as ações que estimula, dia após dia, fornecem toda a
motivação e toda a energia de que ele necessita para se reproduzir. Entre os
mecanismos que buscam se aproximar do modelo de sonhos do moto-perpétuo, a
autorreprodução do emaranhado do medo e das ações inspiradas por esse
sentimento está perto de reclamar uma posição de destaque”.
Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Flávio Gikovate (1943), em vez de
ser um fim em si mesmo, o amor deveria funcionar como um meio para o
aprimoramento individual, nos curando das frustrações do passado e nos
impulsionando para o futuro
Troca-se de parceiro como se troca de peça de vestuário. Tememos
a proximidade do “outro”, pois este, na visão distorcida que dele fazemos, traz
sempre consigo uma sombra ameaçadora, capaz de desestabilizar o frágil suporte
de nossa organização familiar, de nossa atividade profissional e de nossa
sociedade como um todo. A busca por experiências “amorosas” fugazes não
representa sinal de vitalidade sexual do indivíduo, mas um empobrecimento da
sua capacidade de se relacionar profundamente com a subjetividade do outro.
Para Bauman, “nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a
opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante”. O
tipo egoísta é incapaz de amar o outro e tampouco é capaz de amar a si mesmo. O
que essa figura autocentrada supostamente venera em si mesmo é a máscara
social que ela utiliza como instrumento de fuga de sua interioridade “dessubstancializada”,
de sua própria pobreza existencial.
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De tanto utilizar máscaras sociais como instrumento de fuga da própria
interioridade, há o perigo de nos perdermos de nós mesmos
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O caráter agravante de tal situação é que muitas
vezes colocamos o “outro” em situações vexatórias ou em condições vitais
degradantes, e ainda por cima esperamos dele respostas positivas. Tememos amar
plenamente alguém por não querermos ser usados no máximo das nossas capacidades
e sermos descartados posteriormente, quando a relação amorosa vier a demonstrar
os seus primeiros sinais de turbulência: “desenvolvemos o crônico medo de
sermos deixados para trás, de sermos excluídos”. Como o ritmo da vida líquida
é marcado pela flutuação dos ânimos e as incertezas quanto ao futuro, o mais
sensato é não se investir em nenhum tipo de risco afetivo, permanecendo-se
assim na trincheira do amor. Richard Sennett (1943), por sua vez, argumenta que
“nas relações íntimas, o medo de tornar-se dependente de outra pessoa é uma
falta de confiança nela; em vez disso, prevalecem nossas defesas”.
Pensar a questão do amor em sua acepção filosófica
é um exercício intelectual no qual elementos éticos e ontológicos se manifestam
continuamente nessa vastíssima e íngreme reflexão. Amar é certamente um ato
ético, pois nos defronta perante a figura do outro, e também uma experiência
ontológica, uma vez que na vivência do amor penetramos na subjetividade do
outro pelo qual nos afeiçoamos. Todavia, o sistema de vida alienante da cultura
ocidental abalou as estruturas psicológicas dos indivíduos, promovendo assim a
barbárie social e o afloramento da ansiedade perante tempos incertos. O “amor
líquido”, rebento da crise ética da modernidade e de seu fracasso político,
nada mais é que um sintoma da fragilidade das relações humanas na confusão dos
valores submetidos aos signos tecnocráticos do capital. Certamente não existe
uma panacéia para a transformação imediata dessa situação, mas medidas
microscópicas podem ser desenvolvidas no decorrer da vida cotidiana, tendo-se
em vista a revalorização da condição humana e sua inerente sociabilidade.
Liberdade sexual de “massa”
O ardor hedonista de satisfação
imediata dos ímpetos sensuais tornou a figura do parceiro amoroso apenas um
pedaço de carne capaz de proporcionar o prazer esperado. Dessa maneira, a
liberação sexual não se originou de um processo político de afirmação da
alteridade, mas de uma necessidade capitalista de exaustão de todo potencial
humano. A psicanalista brasileira Maria Rita Kehl (1951) é categórica ao
afirmar que “a aliança entre a expansão do capital e a liberação sexual fez do
interesse das massas consumidoras pelo sexo um ingrediente eficiente de
publicidade. Tudo o que se vende tem apelo sexual: um carro, um liquidificador,
um comprimido contra dor de cabeça, um provedor de internet, um tempero
industrializado. A imagem publicitária evoca o gozo que se consuma na própria
imagem, ao mesmo tempo que promete fazer do consumidor um ser pleno e
realizado. Tudo evoca o sexo ao mesmo tempo que afasta o sexual, na medida em
que a mercadoria se oferece como presença segura, positivada no real, do objeto
de desejo”
Maria Rita Kehl, Ética e Psicanálise
Maria Rita Kehl, Ética e Psicanálise
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